Pensamento da semana em Santa Maria da Feira
Gíria futebolística: o Pai Natal marcou um golo e a bancada foi abaixo!
Gíria futebolística: o Pai Natal marcou um golo e a bancada foi abaixo!
Sem ecrãs tácteis, sem malabarismos jornalísticos, eis o verdadeiro resultado das eleições: “A embriaguez ideológica é tal que os jornalistas e os restantes portugueses ainda não perceberam que, mais uma vez, o vencedor das eleições foi… a abstenção.
Assim, a 28 de Setembro de 2009, declaro:
“Não ir às urnas é o mesmo que não estar presente no próprio nascimento”
Ass: Vítor Hugo Rodrigues do Carmo
Nota prévia: este texto é um pequeno excerto do romance que estou praticamente a terminar e por isso os nomes das personagens não estão totalmente identificados. Agradeço a vossa compreensão.
A gaveta mágica
Estava distraído. É um facto. Quando fiz o que a seguir se descreve não imaginaria nunca que os meus actos pudessem ter repercussões positivas, sobretudo quando se trata de algo que só poderia acontecer num filme animado, onde a fantasia se sobrepõe à realidade. Nunca fui desses filmes, sempre fui mais de livros. São uma das minhas drogas preferidas… literalmente. Estou sentado em frente à mesa da cozinha, que sustenta meio copo de Jack Daniels. Sem gelo. Água é água, whisky é whisky. Ao lado, um livro do Henry Miller, que por sinal caiu nas graças da minha professora de português no 11º ano. Dizia-me que escrevia como ele. Nunca concordei e foi por isso que não dei em escritor. Aliás, depois de ler Henry Miller descobri que prefiro ser uma personagem de muitos dos seus livros. Muito mais do que escrever como ele. Os seus personagens são uns felizardos, porque deram todas as fodas que o Henry Miller queria ter dado e não deu. E repara que o Henry Miller é um gajo bem marado!
Finalmente consegui esta relíquia na biblioteca. É “O sorriso ao pé da escada”. Sabes porque andava há tanto tempo atrás dele? Fala de mim. Estou a precisar que falem de mim para mim. Fui aconselhado pelo D****. Disse-me que a obra é uma abordagem sóbria e verdadeira à condição humana e aos seus vícios e virtudes. Sou eu: aquele que se vicia em defeitos para poder encontrar virtudes. É esta a minha condição.
O livro observa-me deitado, mostrando arrogância, como que dizendo que não se esforçará para que eu o abra. Ele sabe que o abrirei e por isso continua altivo, embora deitado. Consegue ser mais forte do que eu.
O recibo da biblioteca espreita por entre as páginas. Retiro-o e coloco-o ao lado do copo com whisky. Sou um fraco. Desde que reparei no livro a olhar para mim já passaram dois minutos. A minha resistência às palavras é fraca. Abri-o, mas não me senti preparado. Falta-me algo… um cigarro. Fecho o livro. Procuro pelo tabaco, mas lembro-me que só o poderei encontrar no escritório. É para onde vou, mas o meu mausoléu está convenientemente desordenado para que possa encontrar o que quero. Não tenho mortalhas. É do que me apercebo quando me volto a sentar em frente à mesa da cozinha. Que porcaria! Não posso começar sem um cigarro. Dou-lhe forte e feio no whisky, enquanto penso na vida. E penso em sexo. Não é que me apeteça, mas não é algo que possa escolher. Às vezes apetece-me sexo, mas não me apetece pensar nele. Sabe melhor. Penso na C**** e naquilo que a sua boca foi capaz de fazer ontem. De repente a cozinha fica escura.
luz
sombra
luz
sombra
luz
sombra
A minha mente viajou até ao lado triste e a sucessão de flashes fechou a boca da C****. Lembrei-me do meu amigo F****. É dele que tenho de me lembrar. Está deitado numa cama de hospital com a treta do cancro na próstata. Ele diz que está a chegar ao fim mas, enquanto seu amigo, não posso concordar. Mas choro. Choro, porque a realidade da sua morte se aproxima. O médico disse que só aguentaria dois dias, dois pequenos dias que atormentam amigos e família. O médico está errado. O F**** aguentará para sempre. O F**** está nervoso, mas curioso, como um puto que tem o bilhete para andar pela primeira vez num carrossel. O F**** vai andar noutro carrossel. A viagem neste está a chegar ao fim. Estou triste. Não tenho mortalhas e um dos meus melhores amigos está quase a partir. É a primeira vez que me acontece, percebes? O primeiro bom amigo a partir. Estou triste, tenho medo, não tenho mortalhas. Coloco os cotovelos sobre a mesa, baixo ligeiramente a cabeça que encontram as minhas mãos. Seguro-a. Fecho os olhos repentinamente. Abro-os. A respiração falha-me. Soluço. Choro.
Choro
Choro
Choro
Fecho os olhos.
Quando os abro a respiração regressa à cadência normal. Olho o livro, o copo com whisky. O recibo da biblioteca olha para mim e avisa-me que tenho de entregar “O sorriso ao pé da escada” daqui a quinze dias. Mas… e o recibo? Não tenho de o entregar? Não.
Já tenho UMA mortalha. Abro a bolsa de cabedal que tem o tabaco, e por onde meto o dedo indicador. Lá dentro, o indicador arrasta o tabaco para o polegar, como se fosse uma escavadora a executar o seu trabalho pausadamente. Estendo o recibo como uma pequena toalha em cima da mesa e deixo cair o tabaco, da mesma forma que se vai colocando o chantilly sobre um bolo de aniversário. Em linha recta, perfeita. Levanto a toalha com cuidado e vou pressionando o tabaco até ganhar forma. Ponho a língua de fora e preparo a carta que vai entrar nos pulmões para se fechar. Acendo o tão desejado cigarro e vou pensando no F**** com calma e realismo. Tenho que aceitar. Ele vai partir.
O cigarro soube-me bem, mas sinto-me zonzo. Não sei porquê. Não misturei droga no tabaco. Sinto-me zonzo, mas livre, despreocupado, leve, a voar. Estou mocado e nem sei como. Adormeço.
Adormeci.
Acordei com uma voz. Estou mesmo mocado. Ainda estou mocado. É o F**** que me fala. Está em pé, à minha frente, a dizer-me algo.
- O quê?
- Estou a dizer para acordares!!!!
Estou muito, mas muito mocado. O que é que aquele cigarro tinha? O F**** fecha os olhos, bufa e repreende-me.
- Deixa-te de merdas D****. Acorda. Preciso de falar contigo.
- Mas tu devias estar no hospital! Como entraste aqui?
- Calma D****. Sou eu, mas não sou eu. Topas? Só vim dizer-te uma coisa.
- Estou a alucinar. Só pode ser.
- Pois estás D****, mas quero que me ouças.
- O que é que me queres dizer?
- Apenas para não te preocupares pá. Vai correr tudo bem quando partir. Esta cena é mais uma viagem. Lembras-te das que fizemos juntos? Isso é que é importante. Não te quero lamechas amanhã.
- Como sabes que amanhã te vou visitar?
- Sei.
- Mas tu vais morrer amanhã?
- Isso não interessa. Vinha pedir-te para que a partir de amanhã esqueças a minha morte sempre que te quiseres lembrar de mim.
Não fui capaz de responder. Fiquei sem palavras.
Antes de ir, o F*** sorriu-me e, com uma voz paternal alertou-me.
- Pensa bem no que andas a fumar.
Não percebi o que se passou. A moca é mesmo grande. Fumei tabaco. Somente isso.
A cozinha fica escura.
Luz
Sombra
Luz
Sombra
Luz
sombra
E fez-se luz. Topei o aviso do F**** porque me lembrei do recibo da biblioteca. Afinal, esta moca é do Henry Miller. Isto é melhor do que erva. Fumei o Henry Miller e o F**** veio visitar-me. Eu vou visitá-lo amanhã. E choro, num misto de tristeza e felicidade. O F**** conhece-me. Levanto-me e vou para o escritório, derramando lágrimas por onde passo. Tenho estantes sem livros, mas já li muitos. É por isso que abro a gaveta do lado esquerdo da secretária. Lá dentro estão todos os recibos da biblioteca. Todos os livros que li e que ainda posso fumar. Não tenho uma mini-plantação de erva na varanda, mas tenho a minha gaveta mágica. O F**** conhece-me bem, os livros são a minha droga… literalmente.
Já lá vão meses desde o dia em que te disse que sabia que tão cedo não escreveria. Hoje, sentindo a carne a destruir-se, a explodir, a criar o sangue que é dor e tormento, indecisão… lamento, recuperei. Não o tempo perdido, que esse só se perde para quem o conta. Recuperei o fulgor através de um choro que teimava em corroer toda a carne que me compõe. Fiquei descomposto. E compus-me. Choro compulsivamente neste Mundo artificial entre artefactos de marionetas que nem sabem quem as veste. Não o meu Mundo, mas o de outros. Quero afastar-me. Do blog, da imagem digital, do mundo artificial. Algo está a nascer, mais forte do que nunca. As folhas que se preparem. As brancas, apenas. Eu estou a chegar, mais forte do que nunca. Chorei muito. É tempo de as folhas brancas deixarem de ser brancas. Também tenho direito a ser intimista. Blog…até qualquer dia, i’m keeping it real.
Um dia vou ouvir um grito meu chamar por mim. As vozes que me rodeiam, através de sussurros abusivos, não se calam. São como mosquitos, persistentes o suficiente para me manterem acordado. Perdi todo o sono que tinha e nem quando durmo consigo dormir. Se pelo menos gritasse para me acordar deste sono e poder dormir outro… esta inquietude dura uma eternidade e nem inquieto a consigo perceber. Persegue-me num ciclo dinâmico que se desdobra noutros ciclos, que me fazem girar em espiral. Esta é a viagem até ao centro, ao meu centro, aquela que ninguém consegue perceber. A viagem até à felicidade nesta enorme espiral que me deixa zonzo, embriagado de vida e com medo da morte. Nascemos habituados a viajar em círculos, recriando círculos e por vezes ficamos quadrados. A emboscada do inconsciente teima em desenhar uma geometria impossível. Se pelos menos gritasse para desfazer estas formas… sentir a alma realmente etérea e eterna. Geometrias inatingíveis pelo consciente. Mas estou aqui.
Planeias tudo para dar certo. Colocas os pontos nos is, tens o cuidado de verificar se o à(há) que utilizas é com ou sem agá, se o acento está na direcção correcta e pronuncias o que achas que te vai alma sempre que te acontece algo de novo. Não é fácil lidar com a novidade mas, enquanto jornalista, apercebi-me de que a abordagem que normalmente o ser humano faz à novidade é maléfica. Mas pode não ser. Depende dos pontos de vista. A forma como encaramos os factos, transformando-os precisamente em suposições, leva-nos a cometer o erro do “astrólogo”, em que fazemos as contas relativamente ao dia de amanhã e pensamos “Amanhã vai ser xis”, e o amanhã nasce e percebemos: “afinal hoje é ipsylon”. Cuidado! Não faças previsões, lá pelo facto de amanhã ser um dia diferente não significa que tu estejas diferente. As pessoas demoram muito tempo a mudar, mas enquanto disserem “até amanhã” é um bom prenúncio. O resto… são suposições. Por isso digo… até amanhã, porque tenho um desejo e felizmente ele não quer morrer. Até amanhã.
Ignoro o som dos passos na rua que vão compondo a ópera da vida. Rasgo sorrisos às estrelas contado o tempo para trás, sentindo na pele o vento que vem do futuro, e que anuncia em folia o tempo que passa. Quero mais, muito mais do que sou, do que fui. Quero o tempo num frasco de compota, que o que foi já não volta, mas ainda aqui está. Vaivém de sentimentos barrados numa tosta de felicidade e o frasco de compota pela manhã, trazendo-me aquele sabor de primavera e que me acorda do sono entorpecido. Descobri finalmente!!! Não estou esquecido e tudo o mais é tudo o que vivo e por isso eu aqui, vivo… digo. Estou sempre comigo!!!
Cai tudo. Cai neve, cai o pessoal que anda a brincar com a neve. Caem igrejas, bancadas de estádios de futebol. Caem bebés, caem adultos. Até os vultos. Cai chuva. Caem pontes, árvores, postes de electricidade. E o ordenado? Foda-se… não cai num dia certo. Ou é antes ou é depois. E o governo caralho??? Quando é que cai?
Nota: para que o post seguinte faça sentido deves ler primeiro este.
Estás à espera de um sinal e ligas a televisão, abres o jornal, ouves o que os outros te dizem, digitas um endereço web no computador e continuas a viver no mesmo Mundo totalmente artificializiado por ti e por todos os que te rodeiam. Estás à espera de um sinal, de que o gajo ou a gaja que está a apresentar as notícias te diga que a crise acabou, de que o jornal tenha impresso os títulos que queres ler: “a vida é fácil e tu consegues viver com a crise”. Numa página da web descobres que a Internet tem princípio e fim e tu sabes os endereços correctos, onde tudo começa, onde tudo acaba. O caralho!!! Tu não sabes nada pá! Enquanto utilizares esses acessórios de merda, tu continuarás a ser um acessório da tua própria vida, como se fosses o Seguro ou o selo do teu carro. Estás a ver o filme? Aquelas coisas que tu não tens a certeza de que necessitas, deixando que o “SE” se apodere de ti. “Se não fizer isto estou fodido”, “Se não ligar a televisão para ver e ouvir as notícias não sei em que pé está a crise”, “Se não abrir o jornal não vou perceber as notícias que são a mera continuidade de ontem”, “Se não pagar o selo do carro a polícia vai acabar por multar-me”, “Se votar naquele gajo está tudo fodido”. O “SE” é o maior filho puta à face deste pequeno planeta. E sabes porquê? Porque é um condicionante. E a vida não pode ser condicionada. É como o amor. Não há amor condicionado. A tua felicidade reside nas tuas incertezas mas, quando lhes colocas o “Se”, tornas-te num gajo ou numa gaja triste. Desliga a puta da televisão. Pousa o jornal. Lê-o apenas em último recurso. Ignora as queixas sociais dos outros e centra-te nas subjectivas. Vive o dia sem a informação nefasta de quem quer dar continuidade à informação nefasta. Manda foder essa merda. Ouve-te! Ouve o silêncio que te rodeia! Vive sem o “Se”. O que é isso? É apenas uma probabilidade e o resto são incertezas. Nunca tenhas uma incerteza como probabilidade. Essas merdas são para a matemática, que obedece a determinadas regras. Lembra-te: sempre que quebras uma regra vives outra incerteza no teu pequeno mundo de uma ética construída por outros. Não quero que sejas anarquista, quero que sejas optimista. Que se foda o “Se”. É apenas um condicionante e tu não nasceste para ser condicionado, porque mesmo preso tens sempre a possibilidade de ser livre. E nem o “Se” consegue bater isso!
Be yourself mothafuckaaaaaaa!!!!
Esqueci-me do telemóvel. E como estou tão feliz com isso. Enumerei jornais e televisões numa continuidade que fluiu à medida que ia escrevendo e esqueci-me do telemóvel. Um objecto, pequeno ou grande, consoante o gosto de cada um. É algo que está relacionado com a minha aversão a essa pseudo-ferramenta de recentes décadas. Portanto, esqueci-me. Toca, cospe o som da distância entre as partes, porque assimilamos automaticamente que estamos sempre distantes do interlocutor quando o filho da puta toca. Enquanto é inútil, estamos sempre mais próximos de quem mais gostamos e mais longe de quem menos gostamos. É mais um acessório. O imediato é inimigo do prazer. Imagina: se estás em casa e precisas de desabafar ligas para um amigo. Ele não atende. Aliás, ninguém te atende. Tarefa: levantar o cú do sofá e partir numa jornada em busca do amigo que te pode ouvir e que está disposto a isso. Procuras em todo o lado e à medida que o tempo vai passando percebes que é cada vez mais difícil encontrares quem procuras. A ansiedade aumenta, a bola de neve vai crescendo, galgando terreno e aumentado de velocidade. O teu coração bate mais depressa e sentes-te vivo. Depois, das duas uma, ou encontras quem queres, ou acabas o dia sem o conseguir. Mas uma coisa acontece: estás esgotado de procurar e, entretanto, enquanto fizeste o teu caminho, expulsaste os teus demónios sem o perceber. Agora queres deitar-te e dormir, com a sensação de que o teu dia está feito e sentes-te motivado para um novo. O telemóvel dá-te tudo o que tu queres sem que tenhas que fazer nada. E ainda gastas pilim. Os humanos dão-te tudo o que tu queres mesmo que não estejam ao teu lado. É o filho da puta do paradoxo: ter tudo é ter nada e mesmo que não tenhas nada podes sempre ter tudo. A puta da alternativa. Essa, que está dentro de ti a gritar-te, a chamar por ti e a dizer-te que estás vivo. O telemóvel não te acorda. Adormece-te. É algo demasiado linear quando emite um som, uma vibração ou uma luz. É um sinal artificial. É um escape à realidade. É como as máquinas fotográficas digitais. Há uns tempos atrás, vivias na incerteza (não na probabilidade) de perceber como sairiam as fotos reveladas no rolo de uma máquina que hoje é rudimentar. E esperavas ansiosamente por ver aquela realidade. Enquanto não a tinhas à tua frente vivias essa realidade. Agora tens um pequeno ecrã que te mostra os retratos instantaneamente e tu abdicas de os memorizar porque sabes que estão na máquina. És tu… a deixar o tempo fugir. Sempre que uma chamada ou um sms no telemóvel termina, tudo termina. A continuidade fica presa à máquina e tu perdes tempo e o tempo é que dita a tua vida, o teu destino, a realidade. Se queres ser real deixa-te de merdas e pensa. Pensa bem. As minhas palavras projectam-se no monitor que está à tua frente e tu sabes que se não as lesses aqui poderias lê-las num papel, ou ouvi-las através da minha voz… real. Alternativas pá! As minhas palavras continuarão a lutar contra o meu blog. Eu mando, eu determino o parágrafo, o tipo de letra, o alinhamento… olhando o computador e dizendo: tenhas tu a capacidade que tiveres, nunca perceberás o que digo, só o gajo que te programou… humano…
Um mothafuckaaaaaaaaa!!!!