Dec 10

Gato

Marco deslizou rapidamente até ao banco do condutor. Fugia da chuva como o gato de pelo eriçado que, segundos antes, passou por si e o olhou profundamente até à alma. Bateu a porta com força suficiente para que a chuva não lhe inundasse o jipe. Sentou-se sem colocar o cinto, como de todas as vezes que não o coloca. O aperto no peito era inoportuno para que algo o fizesse sentir seguro. Está atrasado e o aperto que sente é também pela falta de tempo. Marco vive atrasado e faz dos horários um simples capricho de relógios que não comandam o seu mundo. O seu mundo é outro. O de quem não tem tempo para parar, de quem não tem tempo para chegar a horas, mesmo quando não há hora marcada para chegar. O mundo de quem não antecipa partidas.

Marco acabou de medir um terreno para a construtora que lhe paga um ordenado chorudo. Chorudo o suficiente para ficar sem tempo. O topógrafo dedica-se tanto ao trabalho que, só o trabalho de arranjar tempo para si, lhe retira o tempo de que precisa para trabalhar. E como Marco não quer ter o trabalho de ter tempo para si, o que perfaz dois trabalhos, dedica-se exclusivamente ao que lhe paga o tal ordenado chorudo.

Rodou a chave na ignição e avançou, mesmo sabendo que estava a ficar para trás no tempo. Até às seis da tarde ainda lhe faltavam três terrenos para medir. Vicissitudes de um ordenado chorudo.

Sobre a superfície irregular e enlameada, o jipe bamboleava a mente de Marco, cada vez mais ansioso para chegar ao próximo destino. A chuva miúda de Outono desenhava um ténue nevoeiro no horizonte, retirando visibilidade ao condutor. De olhos bem abertos, chegou à periferia da cidade ao fim de meia hora, sem que o nevoeiro desvendasse por um segundo o percurso que poderia ser feito em muito menos tempo. Empatado num cruzamento que lhe dava acesso a uma via bem mais rápida, ligou o rádio para lhe fazer companhia. Os olhos do gato tinham ficado para trás, tal como a sua alma. Um carro de cada vez, ao som de milhares de gotas de chuva, entrava lentamente na via. Tudo lento, tudo enervante para Marco. Estava com pressa, estava sem tempo, estava com uma dúzia de carros à sua frente. Mais meia hora foi o tempo que perdeu até tocar os lábios da encruzilhada. Mal sabia que estava prestes a entrar na boca do inferno. Parou. O intenso tráfego poucas oportunidades lhe dava para poder tocar a língua do diabo. O rádio acabou por lhe roubar a atenção destinada à estrada:

“Notícia de última hora. Um aparatoso acidente na via rápida entre as cidades de Belzebu e S. Pedro provocou um ferido grave. Um choque entre um camião e um veículo ligeiro, junto ao cruzamento dos Aflitos, danificou ainda algumas habitações, dada a violência do impacto”. Marco não viu nada. Não percebeu o que lhe havia entrado nos ouvidos. Perante tal notícia, arrancou. A segunda mudança não entrou e a cabeça baixou. Quando a levantou viu o dito camião. O vértice inferior esquerdo daquele gigante deslizou sobre o vértice inferior direito do seu jipe. Parou a 30 centímetros do seu rosto, separado apenas pelo airbag. Aquele vómito repentino do diabo prendeu-se ao capot e fez recuar o jipe dezenas de metros. Enquanto o jipe recuava, Marco via à sua frente o que o diabo não tinha digerido e por isso recuou também através da sua memória, viajando até à infância num filme de dez segundos. Pelo meio, os que gratuitamente assistiam a tal película acabaram por sofrer danos colaterais. A traseira do camião deslizou pela direita, levando consigo inúmeros veículos. Portas de automóveis cravadas em portas de casas. Janelas de casas partidas por fragmentos de janelas de automóveis. Fogo-de-artifício infernal. Acidente descomunal.

Ouviram-se quatro segundos de silêncio quando o filme terminou, como se o drama se prolongasse na mente daqueles que nem tinham comprado bilhete para o candidato a melhor filme dramático. Um drama real.

Marco esqueceu-se de si. Apagou-se. A última imagem foi a do vértice do camião. A seguinte já não a podia ver. Estava na cama de um quarto de hospital, com um tubo a fazer-lhe cócegas na língua que nem o próprio sentia. Marco era o ferido grave. Marco era o privilegiado que ouviu a notícia do seu acidente, segundos antes de o sofrer. Depois desse impacto, chegou o dos familiares e amigos. Visitaram a criatura inerte, colada a uma cama ao som da banda sonora do oxigénio medicinal. Era esse o ruído do estado mental de Marco. Estava ali. Somente ali. Estava morto? Não se sabe. Mas fizeram-lhe um funeral. Os tais amigos, os tais familiares. Marco é topógrafo, mas teve quem lhe tirasse as medidas todas. “Coitadinho, ficou sem as perninhas”, disse uma tia que há muito não o via. Foi lá, ao hospital, chorar as suas mágoas. Foi o que todos fizeram. Marco não sofria, porque não estava em si para sofrer. Margarida, sua amada, gritou depois de ter passado pela porta. Ao que se sabe, Marco também não ouviu. Seriam aqueles espasmos de desespero audíveis? As lágrimas caídas no chão daquele quarto provocariam terramotos na inexistente sensibilidade de Marco? Nunca se saberá, mas Marco tinha agora tempo para tudo, uma oportunidade única para medir a sua vida e a sua morte.

A única ferramenta de que dispunha era a sua alma. Não chegou a vaguear pelo quarto. O médico dissera: “De vez em quando passem-lhe uma esponja embebida em água, para que não se desidrate”. Foi a primeira sensação que Marco teve, como a língua de um gato que lhe percorria suavemente o rosto. Essa humidade na face fê-lo despertar. Sentia as costas frias, mas não sentia as pernas. Quando abriu os olhos viu o gato preto que lhe queria roubar a alma.

Marco havia tropeçado. A porta do jipe amparou-o. Pelo menos a cabeça. Não sabe quanto tempo esteve desmaiado. Não sabe qual a razão de tamanho pesadelo. Recuperou a sensibilidade nas pernas. Quando se levantou o gato devolveu-lhe a alma. Foi-se embora levando apenas o olhar profundo. “Mas o que é que se passa comigo?”. Marco não se lembrava como tinha desfalecido, mas lembrava-se perfeitamente do recente pesadelo. Regressou ao tempo que tinha deixado para trás e reentrou no jipe, desta vez na realidade. A superfície irregular e enlameada era a mesma do pesadelo. A chuva miúda de Outono desenhava o tal nevoeiro no horizonte. Marco abriu bem os olhos. Sentiu um arrepio que lhe entorpeceu na nuca. As suas mãos transpiravam sobre o volante, como a corrente de uma cascata desfalecendo em rochas de águas profundas. Era tudo demasiado estranho para Marco. Desdenhava o seu próprio pesadelo naquele momento, sentindo-se incapaz de o redefinir. Mas não tinha o inconsciente do seu lado. Como todos os seres humanos, não domina o que a razão não consegue dominar. Lutava exasperadamente para que o tirassem dali, de uma realidade completamente inoportuna, demasiado coincidente com os seus medos. Marco chegou mesmo a colocar em causa a própria carne. Seria a sua alma que percorria aquele caminho até ao cruzamento? Poderia haver uma qualquer distinção entre a razão e o seu inconsciente? Marco representava naquele dia, àquela hora, o medo de toda a Humanidade. Tantas questões e tão poucas respostas. Estava já disposto a leiloar a sua alma. Era capaz de a vender por uma quantia insignificante ao próximo gato que lhe aparecesse no caminho. Mas um simples gesto poderia mudar o rumo dos acontecimentos e torná-los ainda mais dramáticos. Por isso, colocou o pé no travão do jipe para travar a realidade que há pouco tinha sido um pesadelo. Parou durante alguns minutos na berma da estrada, perguntado a si mesmo se a morte num acidente seria justa. Esperava que um gato qualquer o salvasse. O tempo passava lentamente, como se o diabo esperasse por si no cruzamento durante a eternidade. O tempo é eterno, Marco não tinha dúvidas quanto a isso. Mas será necessária uma eternidade para mudar o tempo? Marco não recuou. Fez-se novamente à estrada. Estava agora curioso para saber se teria direito à redenção em vida. Não queria desperdiçar a realidade e optou por continuar a viver o pesadelo. Demorou meia hora a chegar até ao cruzamento. Uma pequena fila de carros separava-o da via principal. Seria a via do inferno, do paraíso ou da própria vida? Marco queria experimentar o resto da sua vida. Se percorreu todo o caminho entre sonhos e pesadelos, decidiu então dar uma oportunidade ao seu próprio destino. O último carro à sua frente desapareceu no nevoeiro. Marco não vislumbrava o horizonte. Nem o horizonte nem qualquer gato. Estava ali, parado no tempo, com medo de ligar o rádio e ouvir a indesejada notícia do acidente. Atrás de si ouvia também as buzinas que ecoavam a fúria de outros condutores. Esse enorme ruído ficou na sua mente para sempre. E ficou ali, parado no tempo, no cruzamento entre uma vida de sonho e o pesadelo… esperando que algum gato o salvasse.

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Dec 10

mais um excerto de “amor.ódio” (2011)

Tinha a cabeça pousada nas mãos, que amparavam uma mente desordeira e inútil à compreensão de cientistas desesperados por uma razão. Eu e os sentimentos dispersos que as mãos estancavam, impedindo que um mar de lágrimas me afogasse em desespero. Apenas eu e o silêncio, aguardando pela explosão de tristeza. Mas não conseguia. Não era capaz. Queria, mas não conseguia. Apenas eu, sem me sentir, ofuscado pela embriaguez de emoções e obrigado a cegar-me. A tudo isto precedeu-se uma tentativa de iniciar um diário, com o intuito de explicar a mim próprio as razões do sofrimento, de forma a tornar tudo mais claro, mas objectivo claramente destruído à partida. As folhas brancas arderam no pensamento. Não tinha onde escrever. Nem paredes nem chão nem tecto nem céu nem Inferno nem Paraíso, sempre sempre sem juízo.

E as mãos a amparar todo o vazio, porque a dor que mais dói é a que se esconde no vazio. E eu bocejei e as palmas das mão descolaram-se dos olhos fechados… que se abriram.

À minha frente um espelho… e eu, outra vez. Desta, de olhos abertos, a olhar-me e a nada ver, a olhar-me e a nada ver, a olhar-me e a nada ver. E a dor escondida no vazio. É aqui que a raiva provocada pela ignorância e a imperceptibilidade se transforma em alter-ego e eu decido transportar o meu corpo nu até ao quarto, para me vestir.

Eu não, o meu alter-ego.

Qualquer que fosse a indumentária sabia que a minha nudez persistiria. Mas isso era eu que o sabia e não o meu alter-ego. Nunca somos capazes de transportar a própria dor quando  não sabemos com que intensidade vai doer. Eu escondia-me, perplexo a observar todas as peças do puzzle e sem saber por onde começar. Queria apenas uma lágrima. Sobre a cama, o fato preto, a camisa branca. Abri o guarda-fatos.

Eu não, o meu alter-ego.

O meu ódio às gravatas é proporcional à asfixia que sinto quando as uso. Mas tem mesmo que ser. É algo que vai para além do respeito. Eu, que nem gosto nada de formalismos, sentia a frustração de que, colocando ou não a gravata ao pescoço, qualquer uma das minhas convicções emocionais, ou até metodologias supersticiosas, seriam insuficientes para fazer o tempo voltar atrás.

É aqui que o meu alter-ego quase me abandona, mas volto a travar as lágrimas.

Visto-me, absorvendo todos os sons que o vestuário emana à medida que contacta com o meu corpo, numa espécie de ritual insolente, debandando as intenções das gravatas penduradas atrás de mim. É como se estivesse a virar as costas ao suicídio social. Afinal de contas, um pinguim é um pinguim… um homem é um homem.

Mas a puta da gravata devolve-me o respeito, aniquilando as intenções do meu alter-ego em manter-me distanciado da dor.

É aqui que corro para o espelho mais próximo. A testa a pingar, os suores frios gelando-me o corpo. E a dor. A dor cada vez mais perto de mim. E o meu alter-ego vence novamente, porque se reflecte no espelho.

Esta luta fatídica pode ser a minha salvação um dia, devolvendo-me uma verdade que não quero ver, mas talvez já esteja morto quando esse dia chegar. As chaves do carro, o relógio. A porta de casa bate atrás de mim com a lentidão suficiente para que o meu alter-ego possa também passar por ela.

Este é um dia triste. Não como todos os outros dias tristes. Esqueci-me de te dizer… coloquei a gravata. Este dia é triste porque se avizinham tempos mais difíceis do que este. Este é só o começo de uma vingança sem precedente, onde terei de abdicar de toda a minha irreverência social e encadear-me numa estratégia fria, calculista, como se cada passo dado fosse o último, evitando a vertigem. A vingança é assim. Faz-se em tempo indeterminado e leva-nos a jogar com o acaso quando for caso disso. Planear, executar e improvisar perante adversidades imprevistas.

(continua)

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Dec 10

A gaveta mágica – excerto de “amor.ódio” (2011)

Estava distraído. É um facto. Quando fiz o que a seguir se descreve não imaginaria nunca que os meus actos pudessem ter repercussões positivas, sobretudo quando se trata de algo que só poderia acontecer num filme animado, onde a fantasia se sobrepõe à realidade. Nunca fui desses filmes, sempre fui mais de livros. São uma das minhas drogas preferidas… literalmente. Estou sentado em frente à mesa da cozinha, que sustenta meio copo de Jack Daniels. Sem gelo. Água é água, whisky é whisky. Ao lado, um livro do Henry Miller, que por sinal caiu nas graças da minha professora de português no 11º ano. Dizia-me que escrevia como ele. Nunca concordei e foi por isso que não dei em escritor. Aliás, depois de ler Henry Miller descobri que prefiro ser uma personagem de muitos dos seus livros. Muito mais do que escrever como ele. Os seus personagens são uns felizardos, porque deram todas as fodas que o Henry Miller queria ter dado e não deu. E repara que o Henry Miller é um gajo bem marado!

Finalmente consegui esta relíquia na biblioteca. É “O sorriso aos pés da escada”. Sabes porque andava há tanto tempo atrás dele? Fala de mim. Estou a precisar que falem de mim para mim. Fui aconselhado pelo D****. Disse-me que a obra é uma abordagem sóbria e verdadeira à condição humana e aos seus vícios e virtudes. Sou eu: aquele que se vicia em defeitos para poder encontrar virtudes. É esta a minha condição.

O livro observa-me deitado, mostrando arrogância, como que dizendo que não se esforçará para que eu o abra. Ele sabe que o abrirei e por isso continua altivo, embora deitado. Consegue ser mais forte do que eu.

O recibo da biblioteca espreita por entre as páginas. Retiro-o e coloco-o ao lado do copo com whisky. Sou um fraco. Desde que reparei no livro a olhar para mim já passaram dois minutos. A minha resistência às palavras é fraca. Abri-o, mas não me senti preparado. Falta-me algo… um cigarro. Fecho o livro. Procuro pelo tabaco, mas lembro-me que só o poderei encontrar no escritório. É para onde vou, mas o meu mausoléu está convenientemente desordenado para que possa encontrar o que quero. Não tenho mortalhas. É do que me apercebo quando me volto a sentar em frente à mesa da cozinha. Que porcaria! Não posso começar sem um cigarro. Dou-lhe forte e feio no whisky, enquanto penso na vida. E penso em sexo. Não é que me apeteça, mas não é algo que possa escolher. Às vezes apetece-me sexo, mas não me apetece pensar nele. Sabe melhor. Penso na C**** e naquilo que a sua boca foi capaz de fazer ontem. De repente a cozinha fica escura.

luz

sombra

luz

sombra

luz

sombra

A minha mente viajou até ao lado triste e a sucessão de flashes fechou a boca da C****. Lembrei-me do meu amigo F****. É dele que tenho de me lembrar. Está deitado numa cama de hospital com a treta do cancro na próstata. Ele diz que está a chegar ao fim mas, enquanto seu amigo, não posso concordar. Mas choro. Choro, porque a realidade da sua morte se aproxima. O médico disse que só aguentaria dois dias, dois pequenos dias que atormentam amigos e família. O médico está errado. O F**** aguentará para sempre. O F**** está nervoso, mas curioso, como um puto que tem o bilhete para andar pela primeira vez num carrossel. O F**** vai andar noutro carrossel. A viagem neste está a chegar ao fim. Estou triste. Não tenho mortalhas e um dos meus melhores amigos está quase a partir. É a primeira vez que me acontece, percebes? O primeiro bom amigo a partir. Estou triste, tenho medo, não tenho mortalhas. Coloco os cotovelos sobre a mesa, baixo ligeiramente a cabeça que encontram as minhas mãos. Seguro-a. Fecho os olhos repentinamente. Abro-os. A respiração falha-me. Soluço. Choro.

Choro

Choro

Choro

Fecho os olhos.

Quando os abro a respiração regressa à cadência normal. Olho o livro, o copo com whisky. O recibo da biblioteca olha para mim e avisa-me que tenho de entregar “O sorriso ao pé da escada” daqui a quinze dias. Mas… e o recibo? Não tenho de o entregar? Não.

Já tenho UMA mortalha. Abro a bolsa de cabedal que tem o tabaco, e por onde meto o dedo indicador. Lá dentro, o indicador arrasta o tabaco para o polegar, como se fosse uma escavadora a executar o seu trabalho pausadamente. Estendo o recibo como uma pequena toalha em cima da mesa e deixo cair o tabaco, da mesma forma que se vai colocando o chantilly sobre um bolo de aniversário. Em linha recta, perfeita. Levanto a toalha com cuidado e vou pressionando o tabaco até ganhar forma. Ponho a língua de fora e preparo a carta que vai entrar nos pulmões para se fechar. Acendo o tão desejado cigarro e vou pensando no F**** com calma e realismo. Tenho que aceitar. Ele vai partir.

O cigarro soube-me bem, mas sinto-me zonzo. Não sei porquê. Não misturei droga no tabaco. Sinto-me zonzo, mas livre, despreocupado, leve, a voar. Estou mocado e nem sei como.

Adormeço.

Adormeci.

Acordei com uma voz. Estou mesmo mocado. Ainda estou mocado. É o F**** que me fala. Está em pé, à minha frente, a dizer-me algo.

- O quê?

- Estou a dizer para acordares!!!!

Estou muito, mas muito mocado. O que é que aquele cigarro tinha? O F**** fecha os olhos, bufa e repreende-me.

- Deixa-te de merdas D****. Acorda. Preciso de falar contigo.

- Mas tu devias estar no hospital! Como entraste aqui?

- Calma D****. Sou eu, mas não sou eu. Topas? Só vim dizer-te uma coisa.

- Estou a alucinar. Só pode ser.

- Pois estás D****, mas quero que me ouças.

- O que é que me queres dizer?

- Apenas para não te preocupares pá. Vai correr tudo bem quando partir. Esta cena é mais uma viagem. Lembras-te das que fizemos juntos? Isso é que é importante. Não te quero lamechas amanhã.

- Como sabes que amanhã te vou visitar?

- Sei.

- Mas tu vais morrer amanhã?

- Isso não interessa. Vinha pedir-te para que a partir de amanhã esqueças a minha morte sempre que te quiseres lembrar de mim.

Não fui capaz de responder. Fiquei sem palavras.

Antes de ir, o F*** sorriu-me e, com uma voz paternal alertou-me.

- Pensa bem no que andas a fumar.

Não percebi o que se passou. A moca é mesmo grande. Fumei tabaco. Somente isso.

A cozinha fica escura.

Luz

Sombra

Luz

Sombra

Luz

sombra

E fez-se luz. Topei o aviso do F**** porque me lembrei do recibo da biblioteca. Afinal, esta moca é do Henry Miller. Isto é melhor do que erva. Fumei o Henry Miller e o F**** veio visitar-me. Eu vou visitá-lo amanhã. E choro, num misto de tristeza e felicidade. O F**** conhece-me. Levanto-me e vou para o escritório, derramando lágrimas por onde passo. Tenho estantes sem livros, mas já li muitos. É por isso que abro a gaveta do lado esquerdo da secretária. Lá dentro estão todos os recibos da biblioteca. Todos os livros que li e que ainda posso fumar. Não tenho uma mini-plantação de erva na varanda, mas tenho a minha gaveta mágica. O F**** conhece-me bem, os livros são a minha droga… literalmente.

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Dec 10

Biombo

Os punhos fechavam-se sobre as mangas da camisola, encobrindo as palmas das mãos. Evitava o frio que há duas horas era calor e vislumbrava a chuva do outro lado da janela, preenchendo a atmosfera ao som de gotas quase evaporadas quando tombavam na varanda. O anunciado Outono estava do outro lado, devidamente anunciado, devidamente confirmado. Nem frio nem calor, apenas a solidão do tempo que passa sem se fazer notar enquanto a noite se apodera do dia. O frio teimava em permanecer no aconchego do lar. A inevitável imprevisibilidade de uma estação do ano que nos foge do campo sensorial. A tensão do vidro que se embacia do lado de fora, reflectindo para dentro um queixo pousado sobre os joelhos. E as palmas das mãos resguardadas. E o silêncio de um lado. O Outono do outro. Lá fora, onde deve estar.

Paloma estava no centro da bipolaridade de dois climas. Triste por não ter o Outono num só espaço. Dois climas, dois espaços, divididos por uma janela que quase nada transparecia. Sentada no chão. Inerte em contemplação do seu próprio rosto num ritual depressivo. A sua atenção apenas se desviou para reparar nas formigas que passeavam na calha da janela, mas a tristeza voltou quando encontrou o seu rosto no vidro. Observou-o miudamente, tentando num acto de cobardia desviar-se do próprio olhar. Acabou por regressar à evidência da tristeza quando encontrou os seus olhos translúcidos em chuva de cadência desordenada. Por momentos insinuou estar desprovida de sentimentos, mas as lágrimas trataram de deslizar pelo rosto, embatendo nos joelhos. Tanto foi o tempo de contemplação decadente que acabaram por chegar aos seus pés sem nunca perder o calor salgado. Sentiu o choque térmico da tristeza nos dedos desnudos.  

Paloma queria o Outono no estado puro, com as devidas doses de equilíbrio climático. O Outono cinzento que se vai colorindo pela transformação da Natureza. E a tristeza? Continuava a seus pés.

Levantou-se. Corajosamente abandonou o seu rosto no vidro da janela. Foi até ao quarto. Não para dormir, apenas trocar as vestes e aconchegar-se dos pés à cabeça. Só, sem que alguém a observasse, escondeu-se no biombo. Ninguém. Quem visse apenas poderia reportar a sombra que simetricamente se agitava na parede. E a sombra tocou a anca, despindo as calças. E depois as meias. A sombra agitava-se. E depois a camisola. E a sombra em nudez. E o tempo parado…. até ao momento em que a sombra se abraçou num movimento cruzado, pousando as palmas das mãos sobre os seios. A sombra desapareceu. Apenas a luz de um candeeiro de pé. E os seus pés. Espreitando por debaixo do biombo. E o tempo parado… até ao momento em que a trepidação do corpo de Paloma se intensificava ao som de pequenos gemidos. O choro descomunal da desilusão. E um fôlego abrupto quebrou o desespero do silêncio de quem está só.

Paloma já não tinha frio. Contornou o biombo e correu até à sala. Parou de frente para a grande janela que do outro lado projectava o Outono diáfano. Entre os dois o seu corpo no vidro, o seu olhar, a sua tristeza evaporada em nudez. Adiantou-se dois passos e abriu a janela. Sem o torpor de dor emocional pousou um pé intempestivamente no chão da varanda molhada. E depois outro. E viu o Outono, tal e qual como é. Sem a barreira da dor e da tristeza. Apenas o Outono cinzento que se vai colorindo através da Natureza e que naquela noite se coloriu num grito nu. O grito que Paloma queria mais ouvir do que gritar.

E voltou-se. Fechou a janela.

Quando regressou ao quarto fixou o olhar no biombo. Percebeu que tinha de o fechar. Foi o que fez. Já nada tinha a esconder de si própria.

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Dec 10

Mão

O pequeno João girou sobre si próprio de forma a poder colocar os braços sobre o colchão do berço. Os seus olhos abriram-se num olá suave, ainda a dizer “adeus” ao sono. Augurava trepar a pequena cerca do leito. Uma mão após outra, num esforço determinado para vislumbrar o irmão, que do outro lado do quarto ainda dormia. João era o mais novo, Manuel o mais velho. Separados por dois anos. Separados por algumas centenas de centímetros, num quarto que incandescia de subtileza infantil. 18 meses para João, três anos para Manuel.

A luz entrava pelo quarto, subtil e imprevisível, enquanto do lado de fora as nuvens passeavam à frente do sol matinal. João arregalava os olhos, observando o irmão por entre a cerca a que se agarrava com firmeza. No fundo do berço, uma cómoda acoplada, fotos e brinquedos decoravam o santuário de silêncio e tranquilidade. O irmão continuava a dormir. O ímpeto de acção do mais novo levou-o a seguir as pisadas denunciadas pela cerca até à cómoda. A mão minimalista e carinhosa tentava tocar os objectos dispersos. E tocou. E derrubou um brinquedo. Um delicado carro de porcelana. O preferido de Manuel, que acordou. Também ele girou sobre si próprio e num esgar de surpresa ouviu e viu o irmão dizendo-lhe olá, depois de ter dito “adeus” ao sono, numa linguagem incompreensível, mas carinhosa. E depois baixou o olhar, que percorreu lentamente os pedaços de porcelana que se desenhavam no chão. E da contemplação desiludida passou ao choro, que percorreu a casa à velocidade do som do choro, mais doloroso e intempestivo do que o próprio som. O som que acordou os pais. O do choro. E o som prolongou-se até João, que também começou a chorar.

E quanto mais se olhavam, João e Manuel choravam ainda mais. Estava aberto um precedente. O dos brinquedos, o da posse. O precedente da atribuição da culpa e do sentimento de culpa. Os pais trataram de apaziguar o sucedido, também depois de terem dito “adeus” ao sono.

Embora numa idade de pouca tempestade, mas de muita liberdade, João e Manuel apercebiam-se da verdade, de que o desgosto da perda num deles era realidade. João, diria o Universo depois de observar o sucedido, não teve qualquer intenção de provocar tamanha tristeza ao irmão Manuel. Manuel, diria o Universo depois de observar o sucedido, sentia na pele o desgosto de perder algo que se apegava instintivamente a alguém de tão tenra idade. O oposto do apego sucedeu de forma incondicional.

Um dia, dois dias, três dias. No ar a preocupação dos pais, que sentiam a pequena tensão de quem está ressentido com um irmão. Dialogaram em consciência e concentradamente, para que se criasse uma dissimulação simulada do que havia sucedido. Sucessão de acontecimentos ainda imperceptíveis pela razão. Só a adulta o poderia fazer. E o pai, autoridade emocional de paixão descomunal, chamou a si os filhos. Levou-os ao quarto. Numa das mãos uma pequena lata de tinta. Perguntou “Querem pintar?”. O pequeno João quase não tinha noção… do que lhe era perguntado. O pai, em consciência e concentradamente, mergulhou as mãos dos miúdos na pequena lata de tinta. Segurou no pulso da mão esquerda de Manuel e num movimento ligeiro encostou-a à parede do quarto. De azul, marca leve do céu. Fez o mesmo com João, mas segurando-lhe a mão direita. O pequeno ainda tentou levar a mão à boca, como se fosse uma papa diferente da que habitualmente comia. O pai tratou de controlar João, que também deixou a sua marca. De azul, marca leve do céu. Depois de desenhada a paz sobre a parede. Manuel e João soltaram gargalhadas. De meninos, felizes e em paz.

Apesar do esforço dedicado e amável dos pais, que elaboraram o plano de paz, o confronto, não selvagem, mas de perrice infantil, perdurou toda a vida, aliás, quase toda a vida. Na idade adulta, João e Manuel atravessaram transversalmente o segmentos sociais da civilização moderna. Mulher, filhos, trabalho, lazer, família. Não precisamente por esta ordem. Quando um deles tinha uma oportunidade para discutir, discutia. Mas também tinham aprendido a fazer as pazes. Se num acidente tudo começa, num acidente tudo pode acabar.

Manuel sofreu na pele o acaso de um acidente quando no dia do aniversário do seu filho decidiu comprar um pequeno carro de porcelana. Não foi o de porcelana o que se acidentou, mas o seu, cujos pneus anteviram em grito o acidente. Hospital, destino quase final. O irmão não chegou a tempo. E nesse tempo em que João não chegou a tempo, Manuel disse ao pai, depois de se despedir… do pai e da mãe. “Eu amo o João, digam-lhe para esquecer a minha morte sempre que se quiser lembrar de mim”.

A notícia chegou e com ela todos os segmentos pessoais da vida. Dor, raiva, incompreensão. João julgava já não ter o irmão.  Visitou o quarto onde ambos dormiram. Sentou-se numa das camas e vislumbrou as duas mãos pintadas… marcadas na parede. Sentou-se no chão, colocou a sua mão esquerda, a que mais depressa chega ao coração, sobre a pequenina mão do seu irmão. A fria superfície da parede aglomerou-se em calor nos contornos da mão de Manuel e num disparo intemporal disparou. Toda uma vida, um amor que corria agora pelas veias de João e que chegou ao seu coração. Em suspiro desesperado, sem pensar, sem dizer, sem ouvir, João sentiu… “Eu amo o meu irmão”. Quando abriu os olhos estava tranquilo e percebeu que só a porcelana se parte.

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Dec 10

Short short story

A profusão de seres que trespassava a atmosfera em corrupio retirava-lhe o campo de visão necessário a uma avaliação mais precisa e detalhada de um olhar interrompido pela opacidade da rotina, toda ela transversal ao cruzamento de olhares, irrompendo numa circunstância próxima do romantismo. Próxima, a meia dúzia de metros, do outro lado da rua. Aquele espaço era preenchido apenas por velocidade, a passagem alucinante de vidas atordoadas em silêncio de responsabilidade social, numa emergência da civilização em evoluir com urgência. A turbulência, a dormência. Uma poesia decadente de Outono, mergulhada na melancolia da chuva, fazia transbordar pequenos charcos de solidão. E ela estava do outro lado da rua, a quebrar toda a corrosão da humanidade, sem perceber, imaginar até, que alguém a observava com a ternura de uma folha caduca que cai, cai lentamente até tocar o chão, como a página de um livro que se pousa na outra, encerrando um qualquer capítulo de literatura sublime que se regista para a eternidade. Unia o dedo indicador ao médio, como se a sua mão fosse uma arma. O cachecol negro deslizava-lhe pelo pescoço à medida que ela lhe fazia caracóis, num acto ansioso de espera. Eu tranquilo. Esperando ansiosamente que os deuses anunciassem que a espera é interminável. Mas não conseguia esperar. Sentado à espera do autocarro… levantei-me. Avancei decidido. O pé direito tocou o alcatrão e no meu campo de visão só ela. Só ela… e o som de uma travagem que me precipitou na realidade. Esqueci-me da emergência da civilização em evoluir com urgência. E morri apaixonado.

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Dec 10

Natal à mão armada

Quase vomito só de pensar que há pessoas que vão abastecer o automóvel como se fossem passear num shopping. A pressa faz parte da minha vida quando trabalho pá. Tem que ser tudo para ontem, quando não é para anteontem. O tempo foge-me, tás a ver? Não é que eu o persiga, simplesmente ele sabe que não me pode dar tudo o que eu quero e eu continuo a acreditar que isso é possível. E estou eu aqui, na fila de um posto de abastecimento a observar o gajo que está a pagar. Não estou num posto qualquer. Estou num da BP. Foda-se, só a puta da sigla já me dá vontade de dizer PC, como… PRÓ CARALHO! E sabes porquê? Por causa da merda dos cartões de pontos. Os morcões dos empregados perguntam sempre com aquele sorriso de merda: “Tem cartão de pontos?” Cartão o caralho pá. Um gajo vai a um posto de abastecimento a meio tarde para quê? Ver umas calças de ganga, um aspirador, um relógio, o último disco da Madonna? Claro que não. Alguém que faça uma sondagem. É verdade que há muita gente no nosso riquinho País a coçar-se. Tanto coçam que até sangram, mas a meio da tarde? Num posto de abastecimento? Não, meu. Estou a trabalhar, a abastecer para continuar o meu trabalho. E sabes porque estou nervoso, quase a espumar-me? Porque está um gajo a pagar, que já disse que não tem cartão de pontos, e o boi do empregado a fazer uma demonstração dos produtos como se estivesse na TV SHOP. PRÓ CARALHO pá! Despacha-te com essa merda!

Mas o que realmente me enerva é o que eu te vou contar a seguir. O gajo que vai pagar deixou cair uma nota de cinco euros. Tinha o dinheiro certinho, mas a nota foge-lhe das mãos sem que se aperceba. Mesmo atrás dele está uma cabra do caralho que pisa a nota e não diz nada. A gaja quer nitidamente ficar com aquela nota que vai representar mais um pequeno atraso para mim.

- São 20 euros – diz o empregado da BP.

- Aqui está – diz o homem que levou com a injecção dos produtos do cartão de pontos.

- Faltam cinco euros – repara o empregado.

Faltam cinco euros o caralho. Tou a topar a onda da gaja. Dou três passos em frente, baixo-me e tiro-lhe a nota presa pela ponta do pé direito. A vontade que me deu era a de lhe fazer uma entrada a pés juntos, tás a ver? Como aquelas entradas que o Paulinho Santos do FC Porto fazia. Até podia vir o árbitro para mostrar cartão amarelo meu. Colocava as mãos cruzadas atrás das costas e dizia. Eu? Eu não fiz nada sôr árbitro! A verdade é que também não tinha espaço para uma entrada dessas ali no posto. Ergui a cabeça, entreguei a nota ao empregado e disse:

- Acho que o senhor deixou cair isto.

A puta ao meu lado corou. Foda-se, eu tenho mais que fazer pá. Tenho uma vida, tenho um trabalho. Mas sabes… ainda não me estou a espumar, porque a gaja vai conseguir pôr-me fora de mim.

- A seguir – diz o gajo da TV SHOP.

- Olhe, queria pagar, mas queria saber se têm um produto do cartão de pontos – pede a gaja vestida de casaco de pele, nova-rica, de BMW estacionado lá fora e que passa a imagem de não precisar dos produtos de cartão de pontos. Mas precisa. Foda-se pá!

- E o que era?

- Queria o secador de cabelo. Tem?

- Tenho sim. Mas preciso de ir ali ao escritório.

Tá uma fila do caralho para pagar. São quatro horas da tarde e esta merda não anda para a frente. Pior do que isso: estamos a brincar às bonecas e só está um boi a atender os clientes. PRÓ CARALHO pá.

Ao fim de três minutos, três preciosos minutos num dia de trabalho e o gajo chega com a caixa do secador de cabelo.

- Ora aqui está. A senhora deseja um saquinho? – pergunta o empregado.

- Dava-me jeito.

Dava-te jeito era que eu te desse com um gato morto nas trombas até o filho da puta miar, CARALHO. Isso é que era. Mais dois minutos até o gajo encontrar o saco e a gaja paga. ALELUIA!!! A pindérica passa por mim a olhar de lado e de nariz empinado e eu penso: “Te Foda puta!”. É a minha vez de ser atendido. Era… porque entra o Pai Natal na loja. Sim meu, o Pai Natal. Foda-se, só se for para levar a gaja num saco e deixá-la numa ilha de canibais. Isso é que era!

- Olha o Pai Natal. Veio abastecer o trenó ou dar de beber às renas? – perguntou o anormal da TV SHOP que tem a mania que é engraçado.

- Pai Natal o CARALHO!!! Passa mas é para cá o dinheiro que tens aí. Já filho da puta! – enquanto ameaçava o empregado com um bafo a Whisky, o Pai Natal tinha uma shotgun encoberta pelo saco apontada ao gajo, tás a ver? Era o presente que podia rebentar-nos a mioleira.

E eu estou aqui, mesmo em frente ao balcão, com medo de não viver mais um Natal, meu. Tudo por causa da nota de cinco euros, tudo por causa daquela puta. Foda-se! Ai a minha vida.

- Quero o dinheiro já caralho – o Pai Natal tá com mais pressa do que eu.

- Aqui está.

E foi-se. O Pai Natal foi-se, sem tentativas de retaliação. E depois desse filme esperei algum tempo e disse ao gajo para chamar a polícia. Devia era dizer-lhe para meter o cartão de pontos no cú, pelo tempo que me fez perder e que não evitou este cagaço. Mas espera. Isto ainda não acabou.

Tou a sair da loja e vejo o filho da puta do Pai Natal a dar ao kick numa Zundap Famel. A mota não pega pá. O gajo olha por cima do ombro, levanta o cú da mota, ergue a shotgun e diz com aquele bafo de whisky:

- Dá-me as chaves do teu carro filho da puta – agora era mesmo a sério. Agora era eu que estava metido ao barulho, mas limitei-me a abrir a boca de espanto a cinco metros do gajo, como se fosse receber uma bojarda pela boca. E sabes por que estou de boca aberta? É com medo pelo gajo, não do gajo.

Aquela besta de que te falava há pouco, lembras-te? Deve ter estado a brincar com o secador de cabelo, demorou um pouco mais de tempo e, para sorte minha, arrancou no BMW quando o gajo levantou o cú da mota. A gaja ainda se baixou sobre o banco do condutor, onde se sentava apenas um secador, para ver se estava tudo no sítio. E estava meu, mas a gaja não viu. A cabra varreu o Pai Natal e a Zundap Famel. E eu ali… de boca aberta.

 Sabes o que te digo… dá tempo ao tempo meu, ele acabará por ser teu amigo. E deixa de acreditar no Pai Natal… o gajo anda metido no Whisky.

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Aug 10

(des)confianca

O esgar de desconfiança que recai sobre o meu olhar
névoa de incerteza, dança obscura que dança sem parar,
 ilustre beleza, caça pura de quem vive para caçar,
queda lúgubre em gosto de quem sente,
vivendo o passado como presente;

É o medo da presa,
caçada em sentimento
que um dia caçou,
e caça em fervor intenso; 

Este silêncio devaneia em loucura,
resta o gesto descansado de quem vive
de quem grita por ser livre,
de quem escapa à amargura.

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Aug 10

(in)quietude

Esta inquietude que me varre o pensamento

não é ódio, rancor, lamento,

é o coração preso em asfixia,

o medo em solene heresia;

O trovão que dispara em fulgor, entorpecendo o alcance do olhar

é a cegueira, penumbra transformada em dor,

silêncio vago, estrondo inerte de sentir sem amar;

e depois…

em silêncio…

esta inquietude há-de acabar.

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Aug 10

Planos

A beleza é um espaço sem tempo que apenas pode ser preenchido pela humanidade. Aparências, ilusões e desilusões são fruto de planos inconsequentes. O que é, pode não ser. O que não é, pode vir a ser. Por que razão complicamos, quando o caminho mais fácil é o da dificuldade? Planos. É a resposta. Planos, objectivos, vidas centradas em  idealismos. Uma ideia é sempre válida por muito idiota que seja. Os planos, por muito bem delineados que sejam, transbordam de inconsequência. As ideias devem ser preservadas e buriladas, já os planos… teimamos em planear. São o que são, puro racionalismo que teimosamente quer encontrar um destino que nem sabemos se é o nosso. É justo que emocionalmente o façamos, porque a evolução tratou de estruturar no homem pensamentos objectivos em detrimento do puro instinto. Daí a persistência da razão sobre a emoção: a prolongada confusão de sentirmos o que pensamos. Erro crasso. Vicissitudes da civilização moderna, mas continuo a acreditar que esse racionalismo é importante para uma sã convivência entre os seres. É como um requisito mínimo para a vida em sociedade funcionar. Internamente, os danos podem ser avultados e as cartas começam a deslizar do baralho sem que tenhamos percepção do jogo que estamos a jogar… porque começamos a ficar sem cartas.

Este manifesto público, que não pretende de forma alguma ser filosófico, mas elucidativo e conivente com as minhas emoções, prende-se com a observação que tenho desenvolvido. Olhamos uns para os outros sem sabermos o que realmente os outros são, sem sabermos se o que vimos é a realidade. Da ficção somos nós que nos encarregamos. Primeiro a imaginação, a suposição do que os outros podem ser. Depois a insistência em fazer reviver o nosso desejo reflectido naquilo que os outros afinal não são. Construímos ou destruímos o que não sabermos ser belo em instantes. Saímos de casa, convivemos em dissimulada harmonia, e regressamos a casa vazios ou tranquilos, mediante o que nos é dado a observar. Há de tudo no Universo. Eu estou a habituar-me a ser cada vez mais autêntico, algo difícil em sociedade. A fazer tudo o que tenho a fazer… quando tenho que o fazer. Um dia disseram-me e com razão – mas sem que me alarmasse -, que posso vir a perder amigos se for tão autêntico como realmente todos devemos ser. Essa coragem tem vindo a desvanecer-se na civilização moderna. Há sobreviventes. Aí está toda a beleza do Universo. A pureza de sermos autênticos, Ouvirmos com ouvidos de ouvir, vermos com olhos de olhar. Há sobreviventes. Não me posso esquecer de tudo o que aprendi nos últimos tempos. E quem me ensinou isso sabe que lhe estou terna e eternamente grato.

 A beleza é um espaço sem tempo que apenas pode ser preenchido pela humanidade… e por isso aguardo ansiosamente pelo Outono, sem fazer planos. Enquanto as árvores se despem e a chuva vai batendo copiosamente no solo terrestre estaremos todos vivos.

Tenho saudades do Outono.

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