Marco deslizou rapidamente até ao banco do condutor. Fugia da chuva como o gato de pelo eriçado que, segundos antes, passou por si e o olhou profundamente até à alma. Bateu a porta com força suficiente para que a chuva não lhe inundasse o jipe. Sentou-se sem colocar o cinto, como de todas as vezes que não o coloca. O aperto no peito era inoportuno para que algo o fizesse sentir seguro. Está atrasado e o aperto que sente é também pela falta de tempo. Marco vive atrasado e faz dos horários um simples capricho de relógios que não comandam o seu mundo. O seu mundo é outro. O de quem não tem tempo para parar, de quem não tem tempo para chegar a horas, mesmo quando não há hora marcada para chegar. O mundo de quem não antecipa partidas.
Marco acabou de medir um terreno para a construtora que lhe paga um ordenado chorudo. Chorudo o suficiente para ficar sem tempo. O topógrafo dedica-se tanto ao trabalho que, só o trabalho de arranjar tempo para si, lhe retira o tempo de que precisa para trabalhar. E como Marco não quer ter o trabalho de ter tempo para si, o que perfaz dois trabalhos, dedica-se exclusivamente ao que lhe paga o tal ordenado chorudo.
Rodou a chave na ignição e avançou, mesmo sabendo que estava a ficar para trás no tempo. Até às seis da tarde ainda lhe faltavam três terrenos para medir. Vicissitudes de um ordenado chorudo.
Sobre a superfície irregular e enlameada, o jipe bamboleava a mente de Marco, cada vez mais ansioso para chegar ao próximo destino. A chuva miúda de Outono desenhava um ténue nevoeiro no horizonte, retirando visibilidade ao condutor. De olhos bem abertos, chegou à periferia da cidade ao fim de meia hora, sem que o nevoeiro desvendasse por um segundo o percurso que poderia ser feito em muito menos tempo. Empatado num cruzamento que lhe dava acesso a uma via bem mais rápida, ligou o rádio para lhe fazer companhia. Os olhos do gato tinham ficado para trás, tal como a sua alma. Um carro de cada vez, ao som de milhares de gotas de chuva, entrava lentamente na via. Tudo lento, tudo enervante para Marco. Estava com pressa, estava sem tempo, estava com uma dúzia de carros à sua frente. Mais meia hora foi o tempo que perdeu até tocar os lábios da encruzilhada. Mal sabia que estava prestes a entrar na boca do inferno. Parou. O intenso tráfego poucas oportunidades lhe dava para poder tocar a língua do diabo. O rádio acabou por lhe roubar a atenção destinada à estrada:
“Notícia de última hora. Um aparatoso acidente na via rápida entre as cidades de Belzebu e S. Pedro provocou um ferido grave. Um choque entre um camião e um veículo ligeiro, junto ao cruzamento dos Aflitos, danificou ainda algumas habitações, dada a violência do impacto”. Marco não viu nada. Não percebeu o que lhe havia entrado nos ouvidos. Perante tal notícia, arrancou. A segunda mudança não entrou e a cabeça baixou. Quando a levantou viu o dito camião. O vértice inferior esquerdo daquele gigante deslizou sobre o vértice inferior direito do seu jipe. Parou a 30 centímetros do seu rosto, separado apenas pelo airbag. Aquele vómito repentino do diabo prendeu-se ao capot e fez recuar o jipe dezenas de metros. Enquanto o jipe recuava, Marco via à sua frente o que o diabo não tinha digerido e por isso recuou também através da sua memória, viajando até à infância num filme de dez segundos. Pelo meio, os que gratuitamente assistiam a tal película acabaram por sofrer danos colaterais. A traseira do camião deslizou pela direita, levando consigo inúmeros veículos. Portas de automóveis cravadas em portas de casas. Janelas de casas partidas por fragmentos de janelas de automóveis. Fogo-de-artifício infernal. Acidente descomunal.
Ouviram-se quatro segundos de silêncio quando o filme terminou, como se o drama se prolongasse na mente daqueles que nem tinham comprado bilhete para o candidato a melhor filme dramático. Um drama real.
Marco esqueceu-se de si. Apagou-se. A última imagem foi a do vértice do camião. A seguinte já não a podia ver. Estava na cama de um quarto de hospital, com um tubo a fazer-lhe cócegas na língua que nem o próprio sentia. Marco era o ferido grave. Marco era o privilegiado que ouviu a notícia do seu acidente, segundos antes de o sofrer. Depois desse impacto, chegou o dos familiares e amigos. Visitaram a criatura inerte, colada a uma cama ao som da banda sonora do oxigénio medicinal. Era esse o ruído do estado mental de Marco. Estava ali. Somente ali. Estava morto? Não se sabe. Mas fizeram-lhe um funeral. Os tais amigos, os tais familiares. Marco é topógrafo, mas teve quem lhe tirasse as medidas todas. “Coitadinho, ficou sem as perninhas”, disse uma tia que há muito não o via. Foi lá, ao hospital, chorar as suas mágoas. Foi o que todos fizeram. Marco não sofria, porque não estava em si para sofrer. Margarida, sua amada, gritou depois de ter passado pela porta. Ao que se sabe, Marco também não ouviu. Seriam aqueles espasmos de desespero audíveis? As lágrimas caídas no chão daquele quarto provocariam terramotos na inexistente sensibilidade de Marco? Nunca se saberá, mas Marco tinha agora tempo para tudo, uma oportunidade única para medir a sua vida e a sua morte.
A única ferramenta de que dispunha era a sua alma. Não chegou a vaguear pelo quarto. O médico dissera: “De vez em quando passem-lhe uma esponja embebida em água, para que não se desidrate”. Foi a primeira sensação que Marco teve, como a língua de um gato que lhe percorria suavemente o rosto. Essa humidade na face fê-lo despertar. Sentia as costas frias, mas não sentia as pernas. Quando abriu os olhos viu o gato preto que lhe queria roubar a alma.
Marco havia tropeçado. A porta do jipe amparou-o. Pelo menos a cabeça. Não sabe quanto tempo esteve desmaiado. Não sabe qual a razão de tamanho pesadelo. Recuperou a sensibilidade nas pernas. Quando se levantou o gato devolveu-lhe a alma. Foi-se embora levando apenas o olhar profundo. “Mas o que é que se passa comigo?”. Marco não se lembrava como tinha desfalecido, mas lembrava-se perfeitamente do recente pesadelo. Regressou ao tempo que tinha deixado para trás e reentrou no jipe, desta vez na realidade. A superfície irregular e enlameada era a mesma do pesadelo. A chuva miúda de Outono desenhava o tal nevoeiro no horizonte. Marco abriu bem os olhos. Sentiu um arrepio que lhe entorpeceu na nuca. As suas mãos transpiravam sobre o volante, como a corrente de uma cascata desfalecendo em rochas de águas profundas. Era tudo demasiado estranho para Marco. Desdenhava o seu próprio pesadelo naquele momento, sentindo-se incapaz de o redefinir. Mas não tinha o inconsciente do seu lado. Como todos os seres humanos, não domina o que a razão não consegue dominar. Lutava exasperadamente para que o tirassem dali, de uma realidade completamente inoportuna, demasiado coincidente com os seus medos. Marco chegou mesmo a colocar em causa a própria carne. Seria a sua alma que percorria aquele caminho até ao cruzamento? Poderia haver uma qualquer distinção entre a razão e o seu inconsciente? Marco representava naquele dia, àquela hora, o medo de toda a Humanidade. Tantas questões e tão poucas respostas. Estava já disposto a leiloar a sua alma. Era capaz de a vender por uma quantia insignificante ao próximo gato que lhe aparecesse no caminho. Mas um simples gesto poderia mudar o rumo dos acontecimentos e torná-los ainda mais dramáticos. Por isso, colocou o pé no travão do jipe para travar a realidade que há pouco tinha sido um pesadelo. Parou durante alguns minutos na berma da estrada, perguntado a si mesmo se a morte num acidente seria justa. Esperava que um gato qualquer o salvasse. O tempo passava lentamente, como se o diabo esperasse por si no cruzamento durante a eternidade. O tempo é eterno, Marco não tinha dúvidas quanto a isso. Mas será necessária uma eternidade para mudar o tempo? Marco não recuou. Fez-se novamente à estrada. Estava agora curioso para saber se teria direito à redenção em vida. Não queria desperdiçar a realidade e optou por continuar a viver o pesadelo. Demorou meia hora a chegar até ao cruzamento. Uma pequena fila de carros separava-o da via principal. Seria a via do inferno, do paraíso ou da própria vida? Marco queria experimentar o resto da sua vida. Se percorreu todo o caminho entre sonhos e pesadelos, decidiu então dar uma oportunidade ao seu próprio destino. O último carro à sua frente desapareceu no nevoeiro. Marco não vislumbrava o horizonte. Nem o horizonte nem qualquer gato. Estava ali, parado no tempo, com medo de ligar o rádio e ouvir a indesejada notícia do acidente. Atrás de si ouvia também as buzinas que ecoavam a fúria de outros condutores. Esse enorme ruído ficou na sua mente para sempre. E ficou ali, parado no tempo, no cruzamento entre uma vida de sonho e o pesadelo… esperando que algum gato o salvasse.
