
Estações de comboio. Adoro. Dêem-me estações de comboio e a minha linha não tem fim. Partidas, chegadas, olá, adeus, até já, vou ter saudades tuas, amo-te, desiludiste-me, é a última vez que te vejo, bilhetes comprados à última hora, “comboio vindo de Lisboa na linha 4″, “comboio com destino a Coimbra na linha 3″, entrar na carruagem com o comboio em andamento, conversas inconvenientes, discussões pertinentes.. carinhos quentes… um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito.. passos. Os suficientes para parar em todas as estações e apeadeiros do meu coração. É um pouco mais alta do que eu… deve ter cerca de 25 anos, cabelos escuros sobre os ombros, lábios que lembram rosas acabadas de colher num dia de Primavera, com algumas gotas de água que lhes dão um suave brilho… o brilho… daqueles olhos cor de maré mediterrânica.
- Tem lume? - pergunta alguém que interrompeu o meu deslumbre.
- Não, não tenho - nem sei se tenho, mas se encostasse o cigarro a qualquer parte do meu corpo com certeza acendia.
Estou nas nuvens… é a delicadeza em pessoa. A sua simplicidade fascinou-me, ali… com o seu traje informal, discreto… a forma como avança na atmosfera acalmaria a mais tempestuosa das tempestades. “Comboio com destino a Lisboa parte na linha dois às 17 horas”. É o meu, será o dela? Levanto-me, mas já a perdi de vista. Vou apanhar o meu comboio. Entro na carruagem e procuro o lugar em que consiga dispor da vista mais aprazível. Perdi-a… como é possível? Encontrei-a!!!! Está ali, sete ou oito metros separam-nos. Começo a preparar a máquina, porque como é habitual não deixo de procurar as melhores imagens da minha viagem. Ao fim de meia-hora dou uma cabeçada no passageiro sentado à minha frente. O comboio parou de forma brusca, mas não houve feridos graves. Os passageiros começam a sair lentamente da carruagem… está alguém preso à linha… por sorte não morreu… será que é a altura para captar este momento com a minha Canon.
- Nem penses nisso - às suas ordens… todos os seus desejos serão satisfeitos. É ela.
- Claro que não - os meus lábios deixaram fugir uma mentira.
Alguém solta o homem de meia idade das amarras da morte, enquanto chora que nem uma criança. Eu suspiro… que nem uma criança. Todos voltaram aos seu lugares mas… ela decide sentar-se ao meu lado. Será que lhe despertei alguma curiosidade?
- O que é fazes da vida? - pergunta ela a rir-se.
- Olá, sou o Marco.
- Chamo-me Filipa. Podes responder à minha pergunta - sorri perante o meu acanhamento. A sua simplicidade e a forma directa como me aborda está a deixar-me entusiasmado.
- Dá para ver que sou fotógrafo.
- Estavas mesmo decidido a captar aquele momento… - está a encostar-me à parede.
- Confesso que estava, mas ainda bem que não o fiz. Não é bem o meu conceito de arte - respondo denunciando alguma timidez.
- Pois… e para além de artista nota-se que és um apreciador. Reparei que estavas de boca aberta na estação - Alerta vermelho!!!! meti o pé na poça.
- Como reparaste? - corei, era impossível evitar a expressão facial.
- Não é habitual repararem em mim da mesma forma como o fizeste - ela vai mesmo directa ao assunto.
- Não queres fazer disto um caso de uma viagem de comboio? - é minha vez de ser directo.
- Porque é que será que já estás a colocar as coisas nesses termos só por falar desta maneira. Eu sou assim.
- Desculpa - corei outra vez.
Calamo-nos por alguns instantes, até que ganhei coragem para retomar a conversa.
- Sabes… aprecio as coisas simples que emanam pormenores sublimes - de onde é que isto me saiu. Não acredito que o disse.
- Deu para ver. O teu bilhete é de ida e volta?
- É. Vou apresentar um trabalho a Lisboa e volto para o Porto amanhã.
A conversa foi novamente interrompida pelo silêncio. Mas como já se estava a tornar incómodo foi a vez dela.
- Marco… achas que tinha hipóteses de ser fotografada de uma forma artística.
- Sim, claro que sim. Acho que no teu caso até teria o trabalho facilitado - e teria mesmo.
- Estás a dizer que sou uma obra de arte? - está a rir-se à brava.
- Não. Estou a dizer que a tua imagem me parece ser muito mais do que aquilo que vejo. Percebes? Se é assim, o trabalho artístico está quase feito.
- Claro que percebo. O teu bilhete é mesmo de ida e volta?
- É.
- Então não posso por de parte a hipótese de me voltares a observar daquela maneira.
- Podes e deves. Não voltarei a observar-te da mesma forma. O teu encanto foi… é único. O teu bilhete é só de ida?
- É. Mas posso sempre comprar o de volta.
Próxima estação: o encanto da Filipa.