Thursday, August 31, 2006

Pintar o Mundo

 

O choro das crianças confunde qualquer um. Por aflição, ou ausência de carinho, o choro é quase sempre ensurdecedor quando ainda são apenas nove da manhã. O autocarro está lotado… completamente lotado e os passageiros deixaram de murmurar para que o choro da criança se faça ouvir… e bem, e para que a mãe que a leva ao colo se sinta pressionada a fazer qualquer coisa de forma a interromper tanta cólera. Nunca percebi porque se atribui a culpa do choro de uma criança ao parente fisicamente mais próximo quando crianças soltam lágrimas de aborrecimento ou desespero. É social, só pode ser social, porque os passageiros são incapazes de evitar olhares acusatórios à mãe.
Faltam três paragens para chegar ao escritório e, em 15 minutos, já consegui divagar mais do que o Fidel Castro num discurso de oito horas. Enquanto os meus neurónios trabalham no sentido de perceber porque choram as crianças, evitei perfumes desproporcionados ao cheiro de uma cidade banhada pelo nevoeiro matinal… sim, porque é esse o cheiro que aprecio… evitei conversas fúteis de quem pensa que já acordou e ainda está a dormir… mesmo antes de ter adormecido, evitei risos agudos. Tudo isto aconteceu, mas a minha mente preocupa-se com coisas que me fazem abstrair da realidade crua de manhãs frívolas, onde me faço acompanhar por pessoas de todos os estratos sociais imagináveis, num autocarro que se tornou caótico pelo simples choro de uma criança. Mas não me incomoda. É a minha paragem e dirijo-me até à porta. Reparo que a mãe se levanta e coloca-se ao meu lado esquerdo. Estico o polegar e massajo a face direita da criança que já não chora. Estou a abandonar o caos quando ouço uma senhora entre os 35/40 anos dizer qualquer coisa à mãe da criança como… “Se fosse eu já tinha resolvido isso”. Não percebi, nem quis perceber. Incomoda-me esta indiferença, mas não quero ter forças para perceber.

É só mais um dia de trabalho. Recolhi ao escritório na esperança de não ver muita papelada à minha frente, mas as crianças continuam a governar o Mundo… o problema é que há quem mande nelas… pior… quem as violente por tudo e por nada. É mau quando é por tudo e é péssimo quando é por nada. Aprecio ajudar os outros, mas trabalhar numa Comissão de Protecção de Menores é tão violento quanto observar um estalo desferido a uma criança.
Após casos e casos analisados, um almoço mal digerido e uma reunião mais enfadonha e inconclusiva que um decreto parlamentar, abandono o escritório. Opto por não regressar imediatamente a casa. Ainda não é hora de ouvir: “Carlos, tiveste um bom dia? Estás cansado?”, etc, etc. Ainda não me apetece, simplesmente porque detesto fazer o rescaldo de um dia de trabalho se sei que tenho que trabalhar no dia seguinte. Prefiro encarar o trabalho como um efeito secundário da minha ânsia em viver melhor e com mais qualidade e não como uma obrigação.
Percorro as ruas da cidade, sujas pela presença humana, limpas pela noite prestes a cair e a absorver o calor da poluição sonora. Sim, porque noite que é noite consegue impor o silêncio inevitável da escuridão, mas por pouco tempo, porque as máquinas no planeta Terra ainda são muitas.
Entro numa livraria. Bastante colorida e dividida em várias secções, como convém. Não sei ainda o que procuro, mas debruço-me sobre a Literatura clássica. Curioso o facto da organização e disposição dos livros não ser a mais correcta. Nada se encontra por ordem alfabética. Colocaram Vitor Hugo a conversar com Alexandre Dumas, Voltaire a esgrimir argumentos com Shakespeare. Uma sorte, mera sorte poderem estar juntos e contribuir para a evolução cultural do Universo. Será que continuarão juntos?
Tenho um deja vu quando ouço o choro de uma criança que interrompe a minha apreciação metafórica à disposição dos livros. Observo que ao fundo do corredor está um miúdo com um livro na mão. Decido abordá-lo mas, enquanto percorro o corredor, animado pelo sussurro dos grandes vultos da literatura internacional, surpreendo-me por uma senhora que aplica um valente estalo à criança. Interrompo a minha caminhada. A mãe está a dizer ao miúdo que lhe compra um chocolate, porque já tem muitos livros para pintar. A criança não larga o livro e a senhora, que agora reparo ser a mesma que havia dito que tudo resolvia, aplica novo estalo à criança. Percebo perfeitamente que a violência é o seu forte para resolver as situações mais inesperadas e para controlar desejos normais de crianças que, neste caso, até querem “pintar o Mundo”.
Solto uma gargalhada equivalente ao som de uma guitarra agressiva e cínica de Jimmy Hendrix. A mulher olha-me nos olhos e continuo a rir e a mulher continua sem perceber e continuo a rir e a mulher continua sem perceber e continuo a rir. Percebi que de repente fui iluminado por séculos de ironia dos melhores autores. Ali, a meio caminho de um corredor literário, senti-me bem aconselhado por palavras sábias, imbuídas na arte clássica de escrever histórias surpreendentes. E foi isso que quis fazer… surpreender a pobre mulher com o meu riso hipócrita e estridente. Por momentos imaginei-me na pele de um samurai que enverga a sua espada e que com ela aplica um qualquer tradicional golpe japonês com centenas de anos e que corta a mão da violenta mulher. Mas a minha imaginação não avança porque ouço e vejo novo estalo, que emite um som áspero.
O volume do meu riso aumenta. Chego ao fim do corredor. A mulher, intrigada, questiona o meu momento maníaco.

 - Sabe, por momentos imaginei a criança que aqui está, que suponho ser seu filho, a aplicar-lhe um valente estalo – a minha ironia sobressai ainda mais.
- Mas isso ele não consegue – interpõe a mulher ao que respondi eficazmente:

- Mas imaginei-o daqui a 40 ou 50 anos, quando a senhora provavelmente tiver que lhe implorar para atravessar a rua, ou para que lhe mude a fralda pela sua incontinência.

 

Posted by Vitor Hugo Carmo in 14:54:51 | Permalink | Comments (2)

Friday, August 18, 2006

Desejo

Línguas que se enrolam no sabor do desejo
de corpos nus transformados por mãos ardentes,
…o gosto
…é esse,
o gosto que se gruda delicadamente num beijo
é paixão, é agitação de amores quentes

o gosto é esse,
o que sente por dentro
o gosto é esse,
o que deseja no momento

o gosto…
que deseja a doçura de pele macia,
o gosto…
que deseja o sal da transpiração,
o gosto…
que faz do prazer magia
entre pernas entrelaçadas de vibração.

E o desejo de desejar
não é mais do que sentir,
é o prazer de viajar
sem fim a atingir

o gosto…
que te deseja
o gosto…
que te beija
… é esse
no frio ou no calor

do desejo que é amor.

 

Posted by Vitor Hugo Carmo in 15:06:09 | Permalink | No Comments »

Thursday, August 17, 2006

Incondicional

A arma dispara a poderosa bala
e a pólvora explode no coração
sinto que tudo se abala
mas já nada é solidão 

Perdi-me por tanto te querer
e as armas gritaram o silêncio da dor,
recuperei o fôlego e continuou a doer,
sentindo o olhar do teu esplendor 

E gritei,
e chorei
…se te amo
…é porque o sei 

E gritei
e devolvi-me à esperança
e gritei
com o desespero de uma criança
 
…se te amo
é porque te amo
…se te amo
é porque já sei! 

E o revólver disparou a paz da tranquilidade,
calando-se para sempre sem ferir,
porque a ferida sarou com facilidade,
quando me disseste que não querias fugir;

 Se te amo
é porque sei;
O quê?
Isso…
…que aí sentes
que te devolvo sem condição
que te ama no desespero
e te conforta com paixão

 Se te amo…
é porque sabes que não sabias,
é porque sinto que querias saber,
que as tuas horas preenchem os meus dias
e que sabes que todo o tempo é pouco… 

…é pouco para te ter
e se te amo

nada mais preciso saber.

Posted by Vitor Hugo Carmo in 17:01:04 | Permalink | Comments (1) »

Wednesday, August 16, 2006

Vencer

 

Era uma vez um ciclista. Pedalar era a sua vida e, sempre que os poros se cansavam mais do que o próprio corpo pelo suor que dele emanava, o ciclista lembrava-se de pedalar ainda com mais força. Uma força que ninguém compreendia. Sempre que parecia estar cansado e o movimento das pernas diminuía agressivamente, o ciclista sabia que era o momento de pedalar e pedalar…
Depois de muitos triunfos nas competições mais prestigiantes a que o Mundo assistira, preparava-se para mais uma prova, que encarava como um desafio pessoal. O ciclista nunca mostrára o mínimo de falta de confiança. Mesmo quando no ar pairava a possibilidade de doping. Inabalável perante as suspeitas, decidiu aplicar-se com a obstinação de um atleta de alta competição.
Com um currículo invejável, apenas enquanto participante das grandes provas, o ciclista sabia que tinha sobre si o peso de terminar mais uma Volta a Portugal, uma volta de um país pequeno… com tradição no ciclismo. Mas o peso era apenas esse, já que no seu vocabulário competitivo não constava a palavra “triunfo”.
Nada era mais estimulante do que fazer parte de um pelotão, o mesmo onde os amigos o incitavam e os inimigos o admiravam omissamente pelo facto de invejarem as suas qualidades e, sobretudo, pela alegria e predisposição que tinha em pedalar, mesmo sabendo que o ciclista terminava a maior parte das provas no segundo lugar. Era isso que irritava os seus inimigos, o facto de constantemente pedalar de uma forma alegre e, ao mesmo tempo competitiva, mesmo sem triunfar.
A prova começára há 10 dias e, agora no último, o ciclista sentia-se ainda mais leve e mais confiante. No entanto, voltou a ficar-se pelo segundo lugar, mas o eterno lugar de primeiro derrotado não o afectava. Agia como se tivesse sempre um truque na manga… um esforço suplementar.
Descontraído, o ciclista juntou-se aos seus colegas que, como de todas as outras vezes, não o reconfortaram, porque o ciclista não se mostrou agastado. O vencedor da prova pedalou na sua direcção e, intrigado, questionou-o sobre a sua estranha satisfação.

 

- Não é a primeira vez que reages assim. Será sempre suficiente para ti o segundo lugar?
- Claro que não. Sei que posso ser eternamente segundo classificado. Mas posso ser eternamente primeiro classificado por desclassificação do vencedor. E tu sabes que o doping está para o ciclismo como o celibato está para a igreja. Quase toda a gente quebra as regras, mas ninguém confessa os seus erros de percurso. Só se alguém descobrir. – o ciclista respondeu de uma forma que irritou ainda mais o vencedor.
- Tu não bates bem da bola.
- Mas continuo a pedalar. Posso cair e partir dezenas de bicicletas, mas se não conseguir pedalar não colheria qualquer segundo lugar. É esse o meu segredo. Tu venceste e estás irritado por eu ter sido segundo classificado. Isso só demonstra que tu não estás preparado para vencer.
- E tu estás?
- Quando vencer perceberás que sempre estive.

 

 

Nota do autor: Não é que deva um pedido de desculpas, mas o texto que em epígrafe publico acaba por ser um rasgo de inspiração/confrontação, tal como alguns rasgos de ironia que me incitaram a esta publicação. Ironia e participação que admiro. Sei que estou em dívida com aqueles que apreciam e visitam o blog e pela primeira vez gostaria de deixar claro que o blog não morreu. Simplesmente, a vida é feita de muitas “Voltas” e, como tal, espero que aqueles que me seguem no blog, me sigam também noutras “voltas”, que espero venham a ser do vosso agrado. Não vivo única e exclusivamente da escrita embora viva para ela. Se o tempo me permitisse trabalhava nele com mais regularidade, mas em 365 dias isso não será constantemente possível. É por isso que agradeço a vossa compreensão e… não percam o entusiasmo… porque… garanto-vos… também não perdi. Abraço forte para todos.

 

Posted by Vitor Hugo Carmo in 13:56:24 | Permalink | Comments (1) »