Pintar o Mundo

O choro das crianças confunde qualquer um. Por aflição, ou ausência de carinho, o choro é quase sempre ensurdecedor quando ainda são apenas nove da manhã. O autocarro está lotado… completamente lotado e os passageiros deixaram de murmurar para que o choro da criança se faça ouvir… e bem, e para que a mãe que a leva ao colo se sinta pressionada a fazer qualquer coisa de forma a interromper tanta cólera. Nunca percebi porque se atribui a culpa do choro de uma criança ao parente fisicamente mais próximo quando crianças soltam lágrimas de aborrecimento ou desespero. É social, só pode ser social, porque os passageiros são incapazes de evitar olhares acusatórios à mãe.
Faltam três paragens para chegar ao escritório e, em 15 minutos, já consegui divagar mais do que o Fidel Castro num discurso de oito horas. Enquanto os meus neurónios trabalham no sentido de perceber porque choram as crianças, evitei perfumes desproporcionados ao cheiro de uma cidade banhada pelo nevoeiro matinal… sim, porque é esse o cheiro que aprecio… evitei conversas fúteis de quem pensa que já acordou e ainda está a dormir… mesmo antes de ter adormecido, evitei risos agudos. Tudo isto aconteceu, mas a minha mente preocupa-se com coisas que me fazem abstrair da realidade crua de manhãs frívolas, onde me faço acompanhar por pessoas de todos os estratos sociais imagináveis, num autocarro que se tornou caótico pelo simples choro de uma criança. Mas não me incomoda. É a minha paragem e dirijo-me até à porta. Reparo que a mãe se levanta e coloca-se ao meu lado esquerdo. Estico o polegar e massajo a face direita da criança que já não chora. Estou a abandonar o caos quando ouço uma senhora entre os 35/40 anos dizer qualquer coisa à mãe da criança como… “Se fosse eu já tinha resolvido isso”. Não percebi, nem quis perceber. Incomoda-me esta indiferença, mas não quero ter forças para perceber.
É só mais um dia de trabalho. Recolhi ao escritório na esperança de não ver muita papelada à minha frente, mas as crianças continuam a governar o Mundo… o problema é que há quem mande nelas… pior… quem as violente por tudo e por nada. É mau quando é por tudo e é péssimo quando é por nada. Aprecio ajudar os outros, mas trabalhar numa Comissão de Protecção de Menores é tão violento quanto observar um estalo desferido a uma criança.
Após casos e casos analisados, um almoço mal digerido e uma reunião mais enfadonha e inconclusiva que um decreto parlamentar, abandono o escritório. Opto por não regressar imediatamente a casa. Ainda não é hora de ouvir: “Carlos, tiveste um bom dia? Estás cansado?”, etc, etc. Ainda não me apetece, simplesmente porque detesto fazer o rescaldo de um dia de trabalho se sei que tenho que trabalhar no dia seguinte. Prefiro encarar o trabalho como um efeito secundário da minha ânsia em viver melhor e com mais qualidade e não como uma obrigação.
Percorro as ruas da cidade, sujas pela presença humana, limpas pela noite prestes a cair e a absorver o calor da poluição sonora. Sim, porque noite que é noite consegue impor o silêncio inevitável da escuridão, mas por pouco tempo, porque as máquinas no planeta Terra ainda são muitas.
Entro numa livraria. Bastante colorida e dividida em várias secções, como convém. Não sei ainda o que procuro, mas debruço-me sobre a Literatura clássica. Curioso o facto da organização e disposição dos livros não ser a mais correcta. Nada se encontra por ordem alfabética. Colocaram Vitor Hugo a conversar com Alexandre Dumas, Voltaire a esgrimir argumentos com Shakespeare. Uma sorte, mera sorte poderem estar juntos e contribuir para a evolução cultural do Universo. Será que continuarão juntos?
Tenho um deja vu quando ouço o choro de uma criança que interrompe a minha apreciação metafórica à disposição dos livros. Observo que ao fundo do corredor está um miúdo com um livro na mão. Decido abordá-lo mas, enquanto percorro o corredor, animado pelo sussurro dos grandes vultos da literatura internacional, surpreendo-me por uma senhora que aplica um valente estalo à criança. Interrompo a minha caminhada. A mãe está a dizer ao miúdo que lhe compra um chocolate, porque já tem muitos livros para pintar. A criança não larga o livro e a senhora, que agora reparo ser a mesma que havia dito que tudo resolvia, aplica novo estalo à criança. Percebo perfeitamente que a violência é o seu forte para resolver as situações mais inesperadas e para controlar desejos normais de crianças que, neste caso, até querem “pintar o Mundo”.
Solto uma gargalhada equivalente ao som de uma guitarra agressiva e cínica de Jimmy Hendrix. A mulher olha-me nos olhos e continuo a rir e a mulher continua sem perceber e continuo a rir e a mulher continua sem perceber e continuo a rir. Percebi que de repente fui iluminado por séculos de ironia dos melhores autores. Ali, a meio caminho de um corredor literário, senti-me bem aconselhado por palavras sábias, imbuídas na arte clássica de escrever histórias surpreendentes. E foi isso que quis fazer… surpreender a pobre mulher com o meu riso hipócrita e estridente. Por momentos imaginei-me na pele de um samurai que enverga a sua espada e que com ela aplica um qualquer tradicional golpe japonês com centenas de anos e que corta a mão da violenta mulher. Mas a minha imaginação não avança porque ouço e vejo novo estalo, que emite um som áspero.
O volume do meu riso aumenta. Chego ao fim do corredor. A mulher, intrigada, questiona o meu momento maníaco.
- Sabe, por momentos imaginei a criança que aqui está, que suponho ser seu filho, a aplicar-lhe um valente estalo – a minha ironia sobressai ainda mais.
- Mas isso ele não consegue – interpõe a mulher ao que respondi eficazmente:
- Mas imaginei-o daqui a 40 ou 50 anos, quando a senhora provavelmente tiver que lhe implorar para atravessar a rua, ou para que lhe mude a fralda pela sua incontinência.
