Thursday, March 29, 2007

Carta

Se o peso que cada um de nós carrega fosse mais pesado do que a própria alma estaríamos mortos. Ainda me lembro quando estendeste a mão na direcção do meu coração, como que dizendo que dentro de mim ele se sentia frágil. Estava demasiado ocupado com o peso que a minha alma carregava, acreditando que tudo se poderia remediar com a força da razão. Tantas vezes fui fatalmente frio, obrigando-me a pensar certinho, em linhas que se cruzavam numa folha de papel repleta de gatafunhos. E a tua mão continuava ali, a segurar-me no coração, enquanto escrevia na alma palavras que ainda não percebia. Pensei eu – estupidamente obcecado com a necessidade de viver emoções graciosas de amor e carinho –, que o Mundo haveria de parar para me ver, passar-me a mão no pêlo, acarinhando o lamento estúpido. Fartei-me de tudo isso e decidi dar tempo ao meu tempo que achava tão curto, como se o fim da linha fosse já ali, numa curta distância entre o céu e o inferno. Mas a tua mão nunca cedeu. Firme, aguentou um peso leve, que tantas vezes tentou desafiar as leis da gravidade, anunciando que, mais dia menos dia, haveria de cair. Chamei-te pelo nome. Lembrei-me. Pois… lembrei-me e disse: amiga. Lembras-te? Mas disse só para mim, muito baixinho, como se fosse o grande segredo que me salvaria. Percorri ruas cruelmente atestadas de inveja, ironia e ódio, e pensava que poderia viver sem coração. Estava
em tratamento. A tua mão não foi a única, mas se carregou um peso que é meu e que pensava nunca reaver, sinto a necessidade – e não a obrigação – de te dizer que a minha mão está pronta. Não quero o teu coração, quero tratar dele como trataste o meu, quero dizer-te que o peso que carregas é meramente passageiro, porque o que hoje aguentas, amanhã se transformará numa gota de chuva, que cairá por terra num Inverno qualquer, num frio distante. Quero que levantes a cabeça nesses dias de chuva e sintas na cara as gotas de lutas passadas. Para ti, para nós, haverá sempre a chuva. Olha o céu e verás que também chora, porque se ainda não choraste o peso que carregas, saberás que qualquer dia choverá e, até lá, terás o sol… o teu sol, aquele que me alumiou na escuridão e por ti será capaz de fazer o mesmo. O teu sol… incontornavelmente capaz de mudar tudo.


 

Um grande beijo para ti.

 

Posted by Vitor Hugo Carmo in 13:30:11 | Permalink | Comments (4)

Wednesday, March 21, 2007

Poesia sem cura

No que rima com tudo e no que rima com nada

a poesia da vida é ser ilusionista

é encontrar o senso da palavra amada,

caminhando na corda do trapezista


 

Ser poeta é estar mais perto

e mais longe do que o infinito

é ser gota de água que inunda o deserto,

matando a sede do espírito aflito

 

Dá-me poeta …a poesia,

das palavras que ainda não descobri,

que encontrarei num acto de magia

da rima que ainda não vivi

 

Quero o poema da vontade,

que não vejo quando me agarra

quero sentir a liberdade

do verso que a alma afaga

 

Quero a poesia numa flor,

colher a pétala da loucura

quero sentir esta dor

de ser poeta e não ter cura.

Posted by Vitor Hugo Carmo in 23:17:29 | Permalink | Comments (5)