Thursday, June 19, 2008

tristeza

alt : http://www.youtube.com/v/TeOhPR_0×8E&hl=en

Por que é que anda meio mundo (Portugal) e há tanto tempo com a ideia de que o futebol
é o melhor que temos? Não é, nem nunca foi. Palavras como saudade, como fado têm muito mais significado e fazem muito mais sentido. Já tivemos tanto e já perdemos tanto, mas não interessa.
Temos o fado e se estamos tristes… temos o fado. Ninguém consegue ser alegre como o português… ninguém consegue ser triste como o português. Somos diferentes.

Posted by Vitor Hugo Carmo in 23:11:02 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, June 17, 2008

Dor morta

São minhas as amarguras que se arrastam no tempo,

trago amor de um mundo que vive longe e distante

essas tristezas são momentos levados pelo vento,

são o triste amor e o seu alegre semblante

Se o tempo se arrasta entrego-o ao passado

se  a amargura fica não é tempo de odiar,

é tempo de viver entre o destino e este fado

que me consome a alma e me faz amar

Quantas vezes choro sem chorar,

choro contigo por te conhecer e saber

que chorar é viver e amparar

a dor que um dia há-de morrer

Lá vai a amargura no nevoeiro do amor

desvanecendo pelo céu do teu olhar

olhando-me na alma e apagando esta dor

a dor que morre de tanto te amar.

Posted by Vitor Hugo Carmo in 15:09:51 | Permalink | No Comments »

Friday, June 13, 2008

Uma visita especial… ou não


(registado hoje, sexta-feira, dia 13 de Junho de 2008, às 13h02)

Como podem verificar no post seguinte presto homenagem ao grande poeta Fernando Pessoa. Estava no jornal quando deveria estar a gozar o horário de almoço, mas fiquei… no jornal. Escrevi o poema e publiquei-o aqui no blog. Eis que, alguns metros depois de ter deixado a redacção para trás, vejo uma mulher de cabeça erguida a falar ao telemóvel. Primeiro silenciada, depois eufórica, dizendo ao seu(sua) interlocutor(a): “Isto é mesmo muito estranho. Nunca tinha visto nada assim”. O céu é demasiado grande para não repararmos nele, por isso levantei o queixo e também eu fiquei de boca aberta a contemplar aquela imagem. Regressei imediatamente ao jornal para procurar uma máquina fotográfica. Fiquei entusiasmado com o que vi e não podia deixar de registar o momento. Aqui fica registado.

Pouco tempo depois tentei perceber se era a natureza a fazer das suas ou algo superior a isso. Admito que não sou muito supersticioso, mas depressa me lembrei de Fernando Pessoa. O acontecimento não me fez esquecer o poeta, mas lembrá-lo. Aliás, acredito que nos tenha visitado no dia em que se comemoram os 120 anos do seu nascimento. Ou talvez não. Pode ter sido apenas uma sua lágrima que terá abruptamente caído sobre sol, despoletando um arco-íris em sublime circunferência. Bem, se foi uma lágrima de Pessoa, espero que tenha gostado do meu poema. Talvez seja só poesia. Nada mais do que poesia.

Nota: a foto está em bruto. Retirada do cartão da máquina e sem qualquer tratamento. Foi apenas redimensionada.

Posted by Vitor Hugo Carmo in 14:44:29 | Permalink | Comments (2)

Sempre Pessoa Sempre


Pessoa sempre

sempre Pessoa

em  linhas etéreas

Pessoa sempre

sempre Pessoa

em palavras eternas

Poeta de mil rostos

uma só convicção

escrever desgostos

sem procurar a redenção

procurando a alma

de poesia na mão

meu poeta eloquente

sempre Pessoa

poeta para sempre.

Posted by Vitor Hugo Carmo in 12:57:54 | Permalink | No Comments »

Thursday, June 12, 2008

Riso de vaca

 


Carlos meteu-lhe a mão por entre as pernas. Sentiu aquela humidade, aquele líquido quase a escorrer até ao pulso, quente e de cheiro intenso. Um cheiro agradável que lhe dava a sensação de que com toda a certeza a natureza está bem viva e que pode tirar o melhor proveito dela.


– Queres fazer tu?

Carlos assentiu à pergunta de Teresa fechando e abrindo os olhos com ligeireza. Antes de se levantar abriu bem as pernas para não entornar o balde para onde escorria o leite. Carlos colocou as luvas e ocupou o lugar da mulher no pequeno banco de madeira.

– A Olivia está bem cheia hoje – disse-lhe enquanto pousava uma mão nos costados da vaca e a outra massajava suavemente as tetas.

– Sim, está, mas também está cansadinha. Mais cinco minutos e pára. Está bem Carlos?

– Não te preocupes, sei o que estou a fazer – Teresa abandonou a pequena vacaria. O seu destino era a cozinha. O almoço estava a chegar. A chegar porque ainda não estava pronto e cabia-lhe a vez de cozinhar. Tarefas repartidas irmãmente.


Carlos pouco tempo demorou para acabar de ordenhar Olívia, a vaca-palito pela sua fisionomia nada comum entre as vacas. Tinha apenas uma mancha preta desenhada no lombo, em forma de âncora, que apontava precisamente para as próprias tetas. Daí o nome. Bicho feminino, magrinho, magrinho, que presta homenagem a Popeye. Leite não lhe faltava. Era a segunda remessa da manhã. Um culto de aldeia numa grande cidade. Ali perto, a capital não tinha espaço para vacarias. Na periferia, onde a profusão do verde mancha a paisagem, Olívia tinha o que comer.

Carlos acabou o que tinha de acabar, deu uma palmada na Olívia e estranhou a entrada de Teresa na vacaria.


– Então não vais fazer o almoço?

– Vou, mas queria perguntar-te uma coisa. Já reparaste que desde que o Sr. Guerreiro começou a pintar hoje de manhã, aquele lado está a ficar amarelado.

– Ainda não vi.

Carlos e Teresa mandaram caiar a fachada da casa que recebia de fronte o sol castigador de Verão. Guerreiro Pincel foi encomendado para a dita tarefa, mas Teresa não estava a gostar do serviço.


– Fecha lá a porta.

– Porquê? – estranhou novamente Carlos.

– Não te lembras da figurinha do homem? – Para além da arte de pintar, Guerreiro Pincel tinha uma anormal atracção por animais. Certa vez foi apanhado na vacaria de Carlos e Teresa Quintais de calças para baixo com a Olívia encostada a um canto, a mugir que deus a dava. Ele era vacas, galinhas, ovelhas. Constava-se que o homem da capital não batia lá muito bem da caçoleta.


– Tens razão - Carlos fechou a porta e apearam os dois caminhos até à entrada da casa senhorial.

– Ora muito bom dia senhor Guerreiro. Estive aqui a falar com a minha mulher e reparei que realmente o lado que começou hoje a pintar está um bocadinho amarelado. A cal é branca não é?

– É, porquê? – resmungou Guerreiro Pincel de trincha na mão.

– Desça lá do escadote e venha ver – assim o fez e coçou a cabeça.

– É pá. Tem razão.

– Deixe lá isso homem. Da parte da tarde trata disso. A Teresa vai preparar-lhe o almoço enquanto descansa ali no alpendre.


Teresa não gostou da atitude do marido. Estava à espera que repreendesse Guerreiro com veemência. Dentro de casa, Carlos acalmou a mulher.

– O homem trata daquilo de tarde. Já sabes que é teimoso. Mais vale encher-lhe a barriga e depois convencê-lo.

– Eu faço-lhe o almoço, mas não quero ver a casa amarela. Ainda por cima tenho que fazer dois pratos diferentes. O velho só vê natas à frente. 

Teresa aproveitou a primeira remessa vinda das tetas de Olívia de forma a preparar natas caseiras para os bifes que Guerreiro Pincel tanto gostava. Pobre mulher tinha que cozinhar duas vezes. Natas era coisa que não entrava na ementa do casal Quintais. Guerreiro acabou por adormecer na velha cadeira de alpendre enquanto Teresa aprimorava o petisco.

– Venha senhor Guerreiro. Está pronto – Carlos acordou o homem. Acordou-o já chateado. Encomenda normal do resmungão.


Sentaram-se os três à mesa. Teresa olhava de soslaio para Carlos, ainda amuada com a falta de autoridade do marido, que fazia conversa de circunstância, como que amansando a fera para depois deixar a casa branca branquinha. Afinal de contas, tratava-se de cal, branca como a cal.


– Vou sentar-me um bocadinho ali na cadeira do alpendre para depois acabar o serviço – avisou Guerreiro de barriga cheia.

Carlos e Teresa arrumaram a cozinha, sentaram-se na sala a descansar. Adormeceram, mas depressa foram acordados por Olivia.


- Ouviste?

- Ouvi.


Saíram a correr de casa até à vacaria. Abriram a porta e só lá estava Olivia. Mugia que deus a dava, daí o medo do casal.


- O que é que se passa? A vaca está maluca, parece que se está a rir – de facto, Olívia mostrava os dentes, rindo inexplicavelmente.

- Mas o homem não está aqui – constatou Teresa.


Ao voltar para casa, viram Guerreiro sentado na cadeira de alpendre. Dormia como uma criança. De frente para a fachada da casa, Carlos e Teresa torceram o nariz.


- Cheira-te a alguma coisa?

- Por acaso cheira.

- Isto é leite, mas é estragado – disse Carlos, que começou a percorrer os olhos pela parte da fachada pintada de amarelo. Parou o olhar na porta principal que se rasgava na frente da casa.

- Teresa…

- Sim Carlos.

- Vamos acordar o senhor Guerreiro – Carlos voltou ao alpendre, tocou ao de leve no ombro do homem, que tinha o corpo rijo e o rosto branco como o leite.

- O homem não está bem – suspirou Teresa aflita.

- Teresa…

- Sim Carlos.

- Onde é que está o primeiro balde que veio da Olivia? Pousei-o ali à entrada antes do senhor Guerreiro chegar.

- Levei-o para dentro, para fazer as natas.

- Teresa.

- Sim Carlos.

- Onde é que está o balde do Senhor Guerreiro com a cal?

Posted by Vitor Hugo Carmo in 00:34:58 | Permalink | Comments (1) »

Monday, June 9, 2008

Esperança (I)

Porque choras tu português

essas lágrimas de abandono?

Tens fortuna, não a vês?

A esperança é o teu abono

Porque anseias o que já tens,

cantando um fado,

vivendo uma sentença?

Choras num pranto desmesurado

morres fiel à crença;

Queres o mar que vai e vem

e não lembras o que te deu

tiveste tudo o que veio por bem

mas com ganância se perdeu

A esperança é a tua salvação,

foge da loucura da fortuna

a vida é grande,

é de baixo

é para cima

se começares lá do alto

descerás até à ruína;

Lembra os velhos que rimaram,

que ainda dizem o que é teu

não invejes o que outros levaram

a fé está aí,

não desapareceu;

Aprende com a leve esperança

que acreditar é tudo ter

que sonhar é o peso de viver,

sempre com a alma pronta

pronta para acreditar

pronta para tudo ver.

 

Posted by Vitor Hugo Carmo in 23:43:31 | Permalink | Comments (1) »

Wednesday, June 4, 2008

Esperança

Se um dia o mar fugir

chama Camões e o passado nobre,

chora o fado que há-de vir

e esquece o teu povo pobre

pois o mar há-de voltar

pelas ondas da esperança

e a vontade de amar

não é mais do que uma criança

Se o mar voltar entretanto

entre tudo o que te fugiu

serão os deuses e o seu encanto

verás que o céu se abriu

 

O trovão que quebra o mar,

que leva e traz esperança

em ondas de puro clamar

são a vida a acreditar

que o mar volta sem voltar,

que o desgosto é só lembrança.

Posted by Vitor Hugo Carmo in 12:02:45 | Permalink | Comments (1) »