
Carlos meteu-lhe a mão por entre as pernas. Sentiu aquela humidade, aquele líquido quase a escorrer até ao pulso, quente e de cheiro intenso. Um cheiro agradável que lhe dava a sensação de que com toda a certeza a natureza está bem viva e que pode tirar o melhor proveito dela.
– Queres fazer tu?
Carlos assentiu à pergunta de Teresa fechando e abrindo os olhos com ligeireza. Antes de se levantar abriu bem as pernas para não entornar o balde para onde escorria o leite. Carlos colocou as luvas e ocupou o lugar da mulher no pequeno banco de madeira.
– A Olivia está bem cheia hoje – disse-lhe enquanto pousava uma mão nos costados da vaca e a outra massajava suavemente as tetas.
– Sim, está, mas também está cansadinha. Mais cinco minutos e pára. Está bem Carlos?
– Não te preocupes, sei o que estou a fazer – Teresa abandonou a pequena vacaria. O seu destino era a cozinha. O almoço estava a chegar. A chegar porque ainda não estava pronto e cabia-lhe a vez de cozinhar. Tarefas repartidas irmãmente.
Carlos pouco tempo demorou para acabar de ordenhar Olívia, a vaca-palito pela sua fisionomia nada comum entre as vacas. Tinha apenas uma mancha preta desenhada no lombo, em forma de âncora, que apontava precisamente para as próprias tetas. Daí o nome. Bicho feminino, magrinho, magrinho, que presta homenagem a Popeye. Leite não lhe faltava. Era a segunda remessa da manhã. Um culto de aldeia numa grande cidade. Ali perto, a capital não tinha espaço para vacarias. Na periferia, onde a profusão do verde mancha a paisagem, Olívia tinha o que comer.
Carlos acabou o que tinha de acabar, deu uma palmada na Olívia e estranhou a entrada de Teresa na vacaria.
– Então não vais fazer o almoço?
– Vou, mas queria perguntar-te uma coisa. Já reparaste que desde que o Sr. Guerreiro começou a pintar hoje de manhã, aquele lado está a ficar amarelado.
– Ainda não vi.
Carlos e Teresa mandaram caiar a fachada da casa que recebia de fronte o sol castigador de Verão. Guerreiro Pincel foi encomendado para a dita tarefa, mas Teresa não estava a gostar do serviço.
– Fecha lá a porta.
– Porquê? – estranhou novamente Carlos.
– Não te lembras da figurinha do homem? – Para além da arte de pintar, Guerreiro Pincel tinha uma anormal atracção por animais. Certa vez foi apanhado na vacaria de Carlos e Teresa Quintais de calças para baixo com a Olívia encostada a um canto, a mugir que deus a dava. Ele era vacas, galinhas, ovelhas. Constava-se que o homem da capital não batia lá muito bem da caçoleta.
– Tens razão - Carlos fechou a porta e apearam os dois caminhos até à entrada da casa senhorial.
– Ora muito bom dia senhor Guerreiro. Estive aqui a falar com a minha mulher e reparei que realmente o lado que começou hoje a pintar está um bocadinho amarelado. A cal é branca não é?
– É, porquê? – resmungou Guerreiro Pincel de trincha na mão.
– Desça lá do escadote e venha ver – assim o fez e coçou a cabeça.
– É pá. Tem razão.
– Deixe lá isso homem. Da parte da tarde trata disso. A Teresa vai preparar-lhe o almoço enquanto descansa ali no alpendre.
Teresa não gostou da atitude do marido. Estava à espera que repreendesse Guerreiro com veemência. Dentro de casa, Carlos acalmou a mulher.
– O homem trata daquilo de tarde. Já sabes que é teimoso. Mais vale encher-lhe a barriga e depois convencê-lo.
– Eu faço-lhe o almoço, mas não quero ver a casa amarela. Ainda por cima tenho que fazer dois pratos diferentes. O velho só vê natas à frente.
Teresa aproveitou a primeira remessa vinda das tetas de Olívia de forma a preparar natas caseiras para os bifes que Guerreiro Pincel tanto gostava. Pobre mulher tinha que cozinhar duas vezes. Natas era coisa que não entrava na ementa do casal Quintais. Guerreiro acabou por adormecer na velha cadeira de alpendre enquanto Teresa aprimorava o petisco.
– Venha senhor Guerreiro. Está pronto – Carlos acordou o homem. Acordou-o já chateado. Encomenda normal do resmungão.
Sentaram-se os três à mesa. Teresa olhava de soslaio para Carlos, ainda amuada com a falta de autoridade do marido, que fazia conversa de circunstância, como que amansando a fera para depois deixar a casa branca branquinha. Afinal de contas, tratava-se de cal, branca como a cal.
– Vou sentar-me um bocadinho ali na cadeira do alpendre para depois acabar o serviço – avisou Guerreiro de barriga cheia.
Carlos e Teresa arrumaram a cozinha, sentaram-se na sala a descansar. Adormeceram, mas depressa foram acordados por Olivia.
- Ouviste?
- Ouvi.
Saíram a correr de casa até à vacaria. Abriram a porta e só lá estava Olivia. Mugia que deus a dava, daí o medo do casal.
- O que é que se passa? A vaca está maluca, parece que se está a rir – de facto, Olívia mostrava os dentes, rindo inexplicavelmente.
- Mas o homem não está aqui – constatou Teresa.
Ao voltar para casa, viram Guerreiro sentado na cadeira de alpendre. Dormia como uma criança. De frente para a fachada da casa, Carlos e Teresa torceram o nariz.
- Cheira-te a alguma coisa?
- Por acaso cheira.
- Isto é leite, mas é estragado – disse Carlos, que começou a percorrer os olhos pela parte da fachada pintada de amarelo. Parou o olhar na porta principal que se rasgava na frente da casa.
- Teresa…
- Sim Carlos.
- Vamos acordar o senhor Guerreiro – Carlos voltou ao alpendre, tocou ao de leve no ombro do homem, que tinha o corpo rijo e o rosto branco como o leite.
- O homem não está bem – suspirou Teresa aflita.
- Teresa…
- Sim Carlos.
- Onde é que está o primeiro balde que veio da Olivia? Pousei-o ali à entrada antes do senhor Guerreiro chegar.
- Levei-o para dentro, para fazer as natas.
- Teresa.
- Sim Carlos.
- Onde é que está o balde do Senhor Guerreiro com a cal?