Wednesday, September 2, 2009

Regressei

Nota prévia: este texto é um pequeno excerto do romance que estou praticamente a terminar e por isso os nomes das personagens não estão totalmente identificados. Agradeço a vossa compreensão.

 

A gaveta mágica

 

Estava distraído. É um facto. Quando fiz o que a seguir se descreve não imaginaria nunca que os meus actos pudessem ter repercussões positivas, sobretudo quando se trata de algo que só poderia acontecer num filme animado, onde a fantasia se sobrepõe à realidade. Nunca fui desses filmes, sempre fui mais de livros. São uma das minhas drogas preferidas… literalmente. Estou sentado em frente à mesa da cozinha, que sustenta meio copo de Jack Daniels. Sem gelo. Água é água, whisky é whisky. Ao lado, um livro do Henry Miller, que por sinal caiu nas graças da minha professora de português no 11º ano. Dizia-me que escrevia como ele. Nunca concordei e foi por isso que não dei em escritor. Aliás, depois de ler Henry Miller descobri que prefiro ser uma personagem de muitos dos seus livros. Muito mais do que escrever como ele. Os seus personagens são uns felizardos, porque deram todas as fodas que o Henry Miller queria ter dado e não deu. E repara que o Henry Miller é um gajo bem marado!

Finalmente consegui esta relíquia na biblioteca. É “O sorriso ao pé da escada”. Sabes porque andava há tanto tempo atrás dele? Fala de mim. Estou a precisar que falem de mim para mim. Fui aconselhado pelo D****. Disse-me que a obra é uma abordagem sóbria e verdadeira à condição humana e aos seus vícios e virtudes. Sou eu: aquele que se vicia em defeitos para poder encontrar virtudes. É esta a minha condição.

O livro observa-me deitado, mostrando arrogância, como que dizendo que não se esforçará para que eu o abra. Ele sabe que o abrirei e por isso continua altivo, embora deitado. Consegue ser mais forte do que eu.

O recibo da biblioteca espreita por entre as páginas. Retiro-o e coloco-o ao lado do copo com whisky. Sou um fraco. Desde que reparei no livro a olhar para mim já passaram dois minutos. A minha resistência às palavras é fraca. Abri-o, mas não me senti preparado. Falta-me algo… um cigarro. Fecho o livro. Procuro pelo tabaco, mas lembro-me que só o poderei encontrar no escritório. É para onde vou, mas o meu mausoléu está convenientemente desordenado para que possa encontrar o que quero. Não tenho mortalhas. É do que me apercebo quando me volto a sentar em frente à mesa da cozinha. Que porcaria! Não posso começar sem um cigarro. Dou-lhe forte e feio no whisky, enquanto penso na vida. E penso em sexo. Não é que me apeteça, mas não é algo que possa escolher. Às vezes apetece-me sexo, mas não me apetece pensar nele. Sabe melhor. Penso na C**** e naquilo que a sua boca foi capaz de fazer ontem. De repente a cozinha fica escura.

luz

sombra

luz

sombra

luz

sombra

 

A minha mente viajou até ao lado triste e a sucessão de flashes fechou a boca da C****. Lembrei-me do meu amigo F****. É dele que tenho de me lembrar. Está deitado numa cama de hospital com a treta do cancro na próstata. Ele diz que está a chegar ao fim mas, enquanto seu amigo, não posso concordar. Mas choro. Choro, porque a realidade da sua morte se aproxima. O médico disse que só aguentaria dois dias, dois pequenos dias que atormentam amigos e família. O médico está errado. O F**** aguentará para sempre. O F**** está nervoso, mas curioso, como um puto que tem o bilhete para andar pela primeira vez num carrossel. O F**** vai andar noutro carrossel. A viagem neste está a chegar ao fim. Estou triste. Não tenho mortalhas e um dos meus melhores amigos está quase a partir. É a primeira vez que me acontece, percebes? O primeiro bom amigo a partir. Estou triste, tenho medo, não tenho mortalhas. Coloco os cotovelos sobre a mesa, baixo ligeiramente a cabeça que encontram as minhas mãos. Seguro-a. Fecho os olhos repentinamente. Abro-os. A respiração falha-me. Soluço. Choro.

Choro

Choro

Choro

Fecho os olhos.

 

Quando os abro a respiração regressa à cadência normal. Olho o livro, o copo com whisky. O recibo da biblioteca olha para mim e avisa-me que tenho de entregar “O sorriso ao pé da escada” daqui a quinze dias. Mas… e o recibo? Não tenho de o entregar? Não.

Já tenho UMA mortalha. Abro a bolsa de cabedal que tem o tabaco, e por onde meto o dedo indicador. Lá dentro, o indicador arrasta o tabaco para o polegar, como se fosse uma escavadora a executar o seu trabalho pausadamente. Estendo o recibo como uma pequena toalha em cima da mesa e deixo cair o tabaco, da mesma forma que se vai colocando o chantilly sobre um bolo de aniversário. Em linha recta, perfeita. Levanto a toalha com cuidado e vou pressionando o tabaco até ganhar forma. Ponho a língua de fora e preparo a carta que vai entrar nos pulmões para se fechar. Acendo o tão desejado cigarro e vou pensando no F**** com calma e realismo. Tenho que aceitar. Ele vai partir.

O cigarro soube-me bem, mas sinto-me zonzo. Não sei porquê. Não misturei droga no tabaco. Sinto-me zonzo, mas livre, despreocupado, leve, a voar. Estou mocado e nem sei como. Adormeço.

 

Adormeci.

Acordei com uma voz. Estou mesmo mocado. Ainda estou mocado. É o F**** que me fala. Está em pé, à minha frente, a dizer-me algo.

 

- O quê?

- Estou a dizer para acordares!!!!

 

Estou muito, mas muito mocado. O que é que aquele cigarro tinha? O F**** fecha os olhos, bufa e repreende-me.

 

- Deixa-te de merdas D****. Acorda. Preciso de falar contigo.

- Mas tu devias estar no hospital! Como entraste aqui?

- Calma D****. Sou eu, mas não sou eu. Topas? Só vim dizer-te uma coisa.

- Estou a alucinar. Só pode ser.

- Pois estás D****, mas quero que me ouças.

- O que é que me queres dizer?

- Apenas para não te preocupares pá. Vai correr tudo bem quando partir. Esta cena é mais uma viagem. Lembras-te das que fizemos juntos? Isso é que é importante. Não te quero lamechas amanhã.

- Como sabes que amanhã te vou visitar?

- Sei.

- Mas tu vais morrer amanhã?

- Isso não interessa. Vinha pedir-te para que a partir de amanhã esqueças a minha morte sempre que te quiseres lembrar de mim.

 

Não fui capaz de responder. Fiquei sem palavras.

 

Antes de ir, o F*** sorriu-me e, com uma voz paternal alertou-me.

 

- Pensa bem no que andas a fumar.

 

Não percebi o que se passou. A moca é mesmo grande. Fumei tabaco. Somente isso.

A cozinha fica escura.

 

Luz

Sombra

Luz

Sombra

Luz

sombra

 

E fez-se luz. Topei o aviso do F**** porque me lembrei do recibo da biblioteca. Afinal, esta moca é do Henry Miller. Isto é melhor do que erva. Fumei o Henry Miller e o F**** veio visitar-me. Eu vou visitá-lo amanhã. E choro, num misto de tristeza e felicidade. O F**** conhece-me. Levanto-me e vou para o escritório, derramando lágrimas por onde passo. Tenho estantes sem livros, mas já li muitos. É por isso que abro a gaveta do lado esquerdo da secretária. Lá dentro estão todos os recibos da biblioteca. Todos os livros que li e que ainda posso fumar. Não tenho uma mini-plantação de erva na varanda, mas tenho a minha gaveta mágica. O F**** conhece-me bem, os livros são a minha droga… literalmente.

 

 

 

 

 

Posted by Vitor Hugo Carmo in 01:11:22
Comments

4 Responses

  1. Jhonny says:

    My friend, este excerto está muito bem esgalhado. Tão bem feito que, com toda a certeza, funcionaria como uma história isolada.

    Um grande abraço.
    Jhonny Henriquez.

    P.S.: Não queria ser muito mete-nojo, mas falta-te uma vírgula :-). Mas, lá está, nada que uma voz paternal não te alerte para o caso.

  2. Vitor Hugo Carmo says:

    Mas é óbvio que não és mete-nojo. preciso é de críticos como tu. E ainda bem que só falta uma vírgula. As voltas que eu dou ao texto quando o termino para encontrar erros. Jazu!!! É o problema de as correcções serem feitas por quem elaborou o texto. :) Ontem, quando encontrei este excerto, faltavam-me todos os pontos de interrogação, só para teres uma ideia. É sempre a abrir e depois dá nisto.

    Grande abraço Jhonny e obrigado por passares aqui!!!

  3. Carmita says:

    Bem-vindo de volta! Não podias ter regressado em melhor forma!! Muito bom. :))

  4. Alexa says:

    É como eu digo: \És grande!!!!!\. Voltaste!!!! Hurra!!! E em grande forma.
    Parabéns! Adorei!

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